segunda-feira, dezembro 30, 2013

De novo a Joana Gramata





De novo  a «Joana Gramata»


Estávamos no dealbar do séc. XIX.
Joana Rosa de Jesus, descendente do velho Gramata, um dos primeiros que tinha posto pé por aquelas beiras disposto a «lançar ferro», e ali ficar, tinha naquela noite em que o luar espargia, quente e prateado aquele «mar dunar», decidido ir ao encontro do vento. Que se tinha esquecido de espinotear como garrano selvagem, permitindo que o bafo quente saído da terra, ainda a cheirar a salsugem, penetrasse, bofes adentro, como sussurro de búzio. A noite estava calma. Vindo lá do suão a aragem leve, estival, tinha tomado conta da planície, fustigando ao de leve os caniços secos e as hastes de milho que começavam a enverdecer aquelas paragens maninhas. A planura era um mar de silêncio que só o bulício dos milheirais quebrava.

Joana deu por si espreguiçada na duna, a olhar a lua e as estrelas, sonhando com aquela terra prometida, de que se sentia parte, estremecendo de prazer ao descortinar os tufos dos milheirais que começavam a surgir na planura extensa, lodosa e saliente que o mar deixara a descoberto. E sonhou com o dia em que as lonjuras se pintarão de verde forte,  mar alqueivado de vegetação fresca e rebelde, produto da teimosia vigorosa de quem por ali se quedara, acreditando na promessa da terra tenra. Joana estava decidida a fazer parte desse mundo novo, ainda só adivinhado.Custasse o que custasse, fosse qual fosse o cansaço, ou amarga desilusão,  que essa feitura trouxesse com ela.    

De repente foi subitamente despertada pelo barulho de um tropel  de uma manada que se aproximava. O luar reflectido nos olhos  ziguezagueantes dos animais em correria aturdida, fazia parecer que sobre a duna voavam pirilampos incandescentes. Gambuzinos de corpanzis negros avantajados, sacolejando bravios no areal que espirrava do seu tropel,  logo feito  nebulosa faiscante…

Na égua negra de pêlo lustroso, o José Domingos, o «Maluco», rodopiava. Saracoteando-se em rodeio bravio. Para cá e para lá, ora apartando ora repondo no trilho, a manada, enquanto vai gritando: eh!…«Bonita»; eh! «Malhada!»…Chê!..«Desertora» …achegai-vos …ide ao caminho, raios!… 

Joana corre ao seu encontro. Tanto fora já o tempo de espera!.... Dias de sol a sol adiados na esperança de ver chegado o momento. Levantou-se estendendo  a cabaça de água fresquinha, pronta a ser oferecida para dessedentar o condutor da manada da baforada da noite. Maneia-se lépida, saia curta pelo meio da coxa morena. Na cara vai um sorriso malandro, meio envergonhado, meio picante, que sabe fazer apetecer coisas simples. Que por vezes parecem esquecidas na lufa-lufa da vida.
Joana vai mais fresca que a água que leva na cabaça,e o Domingos  tem é sede  da mocetona.Fome dos seus beijos, saudades  daqueles olhos que, doces como amêndoas, cegam. Desejo daquela pele escura, cor de canela macia temperada pela maresia. A noite parecia repentinamente iluminada por aquele fogo. Era fogo a lamber outro fogo, que água alguma era bastante para apagar. Vento forte faz estremunhar, mas aragem cálida da noite, essa(!), atiça

«O Maluco» ergue-a do chão e coloca-a na garupa da égua que aceita o carrego de bons modos, ela também cansada da solidão. Joana aconchega-se à sua cintura e, sem palavras, dirigem-se para o palheirão onde um coxim de palha, forrado de papoilas vermelhas, não lhes vai dar tempo de ajeitar melhor recosto.

Passados os meses da conta, na palha, sob o bafo quente da «Bonita», da «Malhada», da «Desertora», e de outras tantas, aconchegado pela quentura da «Bonita», a égua negra do Domingos, nasce, na noite fria de Dezembro, o primeiro dos nove filhos que o casal dos «Malucos» fará vir ao mundo, naquele recanto da Galefanha.

Que em sua honra usará para distinção, o nome da terra da «Maluca».

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Nota importante: Sempre fui uma mau arquivista. Felizmente tive sempre grandes ajudas nesse ponto, e por isso, muitas coisas se salvaram. Ora sucede que há tempos, amiga de longa data trouxe-me uma sacola de papelada, onde encontrei –feitos há 40 anos(! )– textos, poemas,documentos e outros.

De ente eles espantou-me este texto que reproduzo acima. Não vinha acabado, não tinha assinatura etc. Mas a letra era minha. Apontamentos tirados? Admito. Mas na textura encontro muito (ou tudo) da minha maneira de escrevinhar. Não sei, mas gosto dele. E divulgo-o com as reservas que aqui deixo. Junto ao muito que tenho escrito sobre a Joana Gramata.
SF -30 Dezembro de 2013 

terça-feira, dezembro 24, 2013


 

NATAL 2013

 
O relógio não para
O tempo corre
Neste dia afinal, frio e zangado,
A ria palheteada de prata
Parece cansada
Da sua peregrinação
De tanto correr para o mar.
E eu também cansado
Fico a desouvir  o mundo
Onde reina humana  expiação.
 

É  frio este entardecer
Não vale a pena fingir
E rezar por mim.
Não, não o faças.
Cheguei à vida
Porque assim quiseram.
Cheguei a sorrir,
Eu não sei bem se o desejava.
Não sabia que ia cumprir
Um fadário em que me negava:
Mais  fazer pelos outros
Que por mim não ser.

 
Hoje  anseio
Nova noite de magia
Em que nasças de novo;
Não  para seres mais o menino
Mas para seres o Homem
Que com a palavra derrubasse o muro
Para que por ele passem
Aqueles para quem não há presente,
E muito menos futuro.

Quereria ainda antes de partir
Ter a doce ilusão
Uma ilusão do tamanho
Do  meu eu
Que a humana pequenez
Do espoliado revoltado
Ferisse a «fera» do mundo;
E quando a manhã nascesse
Não houvesse ricos nem pobres
E o homem fosse o centro da bandeira
A  querer ser sem condições
A olhar livre, todas as direcções.

 
E quando hoje deixasse de ser hoje,
Este obscuro poema
Transformado presépio real
Pudesse gritar ao mundo:

Afinal sempre há  Natal!

 Sf-Natal 2013

domingo, dezembro 22, 2013



 

Cantiga de amor  (Glosa)



 Ai eu, coitado , como vivo
Em tão gran cuidado…
 
Por minha amada,
Que foi de mim separada….
Muito me cuida
Não a ver aqui sentada


Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  desespero


 Por minha amada,
Que tarda  eu não a ver
Oh!  que  vida escangalhada
Ela não vem, e eu louco de a ter.  

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tão gran  amargura

 
Por minha amada,
Vou penando minhas agruras
Vem amor, vem depressa
No teu corpo traz-me a cura.

 

 Ai  eu, coitado, como vivo
Em tão gran  solidão

 
Por minha amada,
Aqui vou esperando em vão
Ai amor …ai amor
Vem - me dar teu coração.

 
Ai eu, coitado, como vivo
Em tan grande  penar

 
Por minha amada,  
Não vir trazer  seu amor.
Vem, traz o teu manto de linho
Para a minha dor embrulhar.

 
Ai eu, coitado ,como vivo
Em tão grande perdição

 
Por minha  amada,
Que  ontem  eu ei perdido,
Grito a dor da sua ausência
 Viver assim, ai!...eu não quero, não…. 

 SF 2013

quarta-feira, dezembro 18, 2013



Vou fechar a portada....  




Porque tive eu a ver

Com senhoras que se vão lavar à missa,

Ou com homens «felizes»,

Porque lhes é dado o encanto da estupidez?





A minha vida nunca foi para mostrar

Nem sequer para trazer como amuleto

Pendurado ao pescoço.

Mas....

No ar, hoje, nesta calmaria aparente

Há uma dorida ausência de sol

Há, eu sinto,

Uma vibração latente, estranha

Pairando no ar, parecendo ausente,

          

Serão bruxedos?

Lá que os hay….hay….

Agora já não duvido.

A fé e o bruxedo são

Faces de moeda

Do mesmo enredo.



No pinheiro que tenho

Postado em frente de mim

Uma gaivota pousa, e geme.

Lá no largo, a ria é baça

Há asas a bater…a bater de mansinho

Gritos de passarada adivinhando a noite;

Em mim um vazio imenso

Que terei de sorver até ao fim,

Agora sozinho.

Vou fechar a portada

Despedir –me da ria amada

Cá dentro tudo está como era dantes.

 Um dia, prometo, vai haver

Uma noite diferente;

Nela só eu e tu, ria (!)

Bailaremos de novo a valsa da vida

Como tantas vezes o fizemos antes..



Nossa a noite largamos ferro

Desfraldamos velas

E partimos, então, sem rumo :

Que importa de onde viemos…

 Ou para onde vamos ?!

 Tudo o que quero é fugir

De dentro de mim;

Fugir à sede de me procurar

Com medo de me encontrar.
 
                Sf Dezembro 2013

             

     

terça-feira, dezembro 17, 2013


Eu e a minha má relação com os «Natais»

 
Gostaria de viver utopicamente num mundo onde não fosse necessário haver «natais», para, por vezes  e só aí, nos lembrarmos para fora. Para todos os que nos rodeiam. Uns  para quem olhámos mais. Não precisariam de…. Outros de quem até certamente, apesar de tão próximos, nem demos por eles.
Parece que só no Natal, nos apercebemos de que durante o ano errámos (inadvertidamente?) os gestos.
Bem : valha-nos ao menos termo-nos apercebido, momentaneamente, disso.
Os «natais» foram sempre um tempo de grande amargura. De mal-estar e inquietação. Tempo de avaliar que o que fui fazendo, que quase sempre esteve em desacordo com o que queria realmente fazer. Ou pelo menos longe…..
Afinal olho para trás, e concluo: fui um acomodado.
Aqui chegado, concluo que não vale a pena ter pena de mim, por me não atrever a mudar.
Também nos meus «natais» havia pratos fingidos, postos em cima de toalhas fingidas, com trenós e renas, cheios de vitualhas que, fingidamente, se acreditava existirem em todas as mesas. Porque o fingido «Pai Natal», não cometeria o sacrilégio de as dar só a alguns. E logo a mim…..
Andei uma vida a prometer-me, que um dia iria finalmente para um qualquer lado, onde houvesse um qualquer rio, para nele voltar a pôr a navegar os barcos de papel que levavam as pedras preciosas dos meus sonhos de criança.
Agora que já não há rios, nem barquinhos, e muito menos sonhos, abstraio-me, esperando que as horas corram. E minimizo , aqui e ali, só pontualmente, as coisas. Como já não estou em lugar algum que me permita modificar seja o que for, não o altero. E não me incomodo. Vou para a cama sem projectos .
 E percebo então porque há muitos que dormem sempre bem !São os que andam uma vida a acreditar que os «pais natais» chegam e sobram para resolver os problemas dos outros....
SF - Natais

segunda-feira, dezembro 16, 2013




Heterónimo…et voilà..

Com o aparecimento do livro «Maresias», sucedem-se os espantos daqueles que, conhecendo-me ao longo de uma vida, foram construindo uma ideia completamente diferente do meu eu, como personagem. Às vezes até – que diabo! – excessiva. Bem distorcida, muito hiperbolizante.

Eu justifico:  nós… todos nós!... não podemos ser exactamente como gostaríamos de ser. E a vida comanda muito da nossa postura, e até, dos nossos actos.

O mundo-dizia o poeta- é de quem não sente. Eu por mim encontrei uma boa dose de insensíveis. Dizem essas pessoas que são assim por assumirem uma atitude essencialmente pragmática. Outros até chegam ao dislate de serem assim, ou assim procederem, por racionalidade:  dizem !

Ora comigo numa ansia de querer ser tudo quanto a vida me deixasse ser, houve momentos que me exigiram determinação, risco, e logo, acção. Por vezes foi preciso fazer escolhas dolorosas. Toda acção tem em si uma provocação da nossa personalidade sobre  os que nos circundam: às vezes ocorre falharmos. E então magoarmos, ferir alguém que se atravessa no nosso caminho. Quem quer ser, apenas e só simpático, não sai do mesmo sítio.

Houve pois momentos doridos. Não tinha a certeza que as minhas decisões estivessem certas.

E sabia que um dia teria de o confessar, mesmo publicamente. E foi o que aconteceu, agora que me desnudei, tal desfaçatez não deixa de criar engulhos a alguns. Expor-me assim...?!

Uma sensibilidade híper activa esteve sempre presente. E por isso houve momentos em que necessariamente tive de ser frio, calculista e até exceder as barreiras convencionais.

Todos nós carregamos um «crime» feito, ou um crime que a vida nos pede para praticar. Hoje sinto-me com as contas em dia.   

Concluo que deveria ter assinado o «Maresias» com um heterónimo. Assim talvez estivéssemos mais perto da realidade.

Uma parte exigiu que fosse de uma maneira; outra parte permitiu-me ser um outro que talvez sempre tenha desejado ser, mas que me foi impossível ser….

SF   Dez 2013

sexta-feira, dezembro 13, 2013




Prolongando a vida num poema


Tarde pardacenta em que tudo parece suspenso. Até  a ria está deserta. Nem a cricalhada  de que normalmente um homem não se enjoa, os parece atrair de todo. Não os vejo a lavrar o areal.
Tempo de desesperos :  o desespero do desespero é sentir que mesmo estes dias inertes, contam para o calendário. O que não está,de todo, certo.
O tempo enfarruscado parece adivinhar uma consoada fria, onde apenas e só conta e pesa, o que não pudemos ser, daquilo que queríamos ser . E o peso das nossas omissões pesa como chumbo.

Ano de desencanto ,onde o presente desmerece do passado, e parece já não haver lugar para (algum futuro).Tudo o que se fizer daqui para a frente é um matar de solidão. Pareço  siderado num passado que já foi meu, temendo que  hoje, Só, a vida pouco tenha de encanto.

Que fazer? Rabiscar um poema para me  sentir um pouco mais  vivo? Vamos lá  ver....                                                     
 
                                                Sinto-me hoje abandonado
                                                 Não sei quem está
                                                 Sei apenas que não está
                                                  Quem desejava.
                                                  A vida  traiu-me                                                
                                                  E  hoje apenas namoro
                                                  A paisagem da ria,
                                                 
                                                  Absorto
                                                 
                                                  Escondo no olhar
                                                 
                                                  O meu abandono.
                                                 
                                                  Apetece-me emprenhar
                                                 
                                                  O mundo
                                                  
                                                  De sábia harmonia
                                                  
                                                  Transferida de meus olhos,
                                                 
                                                   Para pauta em serena melodia.

                                                     
SF  Dez 2013

domingo, dezembro 01, 2013




 Na Apresentação do livro «MARESIAS», li o poema abaixo ,como agradecimento a todos quantos colaboraram no espectáculo, que ,segundo o feed -back  conhecido foi do agrado de todos.

Amigos:


Dei à magana da vida

Tudo o que tinha.

E às vezes mesmo 

O que não tinha,

Para isso reinventando-me.

Enchi o alfobre do sofrimento

Ajoujei o cabaz das alegrias

Mas sempre – sempre!

A vivi em suor honrado,

Sem uma cedência sequer que fosse.

Pergunto- me hoje para quê?

Neste tempo em que se aproxima o adeus

Pergunto-me se valeu a pena

Todo este montão de vida imaginada

Sonhada

Mas nem sempre sabiamente usada?

Levo nos olhos marejados de uma teimosa lágrima

O azul da ria, a nobreza do mar, a inquietação do vento

Tudo me preenche a alma desnuda;

E levo…levo acima de tudo, uma vénus semi- nua

Que me acompanha, de cada beijo fazendo uma estrela

Onde está escrito : Viva a Liberdade.

 
SF 
 
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De todas as felicitações destaco uma gratificante apreciação ,de um amigo , O Prof.Fernando Martins ,que em determinada altura ,foi um dos incitadores para que eu vencesse a indecisão de publicar o livro
Podem ler em http://pela-positiva.blogspot.pt/2013/11/maresias-poesia-de-senos-da-fonseca.html e ficarem a conhecer aquele que é sem duvida um dos mais prestigiados Blogs ,por cá publicados.

E pronto: ao Chio-Pó-Pó, à Zita ,`a Ana Maria Lopes,à Ana Maria Moraes,ao Rui Bela, à Fundação Prior Sardo, ao Grupo Poético de Aveiro, um abraço do meu Obrigado.

SF

sábado, novembro 30, 2013





 

De: Mim

Para.: Ninguém

(Qualquer semelhança entre este exercício, e  alguém, é pura coincidência. Ninguém é  de ninguém.)

 
Sábado do meu descontentamento

 
Começo a despertar e a dispensar-te do meu pensamento.

O que fazes ostensiva em nome dum «mata à fome»,começa a deixar que se não refugie, em  mim,  a «minha» imagem de  Ti ( não o que és...)

Afinal constato, tu nunca poderias ser, o amor que idealizei, tu poderes ser. Verdadeiro lapso, que a mentira deixou sobreviver. O fazer de conta não duraria.....uma mentira continuada.

 
E é assim: amo-te como aos poentes. Ou o luar à noite. Com o desejo que o momento exista, mas que não fique. Gosto da sensação de vê-lo ,mas já não, de o ter .

 SF  NOV 2013

domingo, novembro 17, 2013



Mapa  de 1783(5?)

Se os anteriores mapas publicados,referentes à Laguna de Aveiro e às vicissitudes ocorridas na zona mais instável  da sua área geográfica,são  preciosos –porque pouco ou nada divulgados –o presente mapa é,a nosso ver,de extrema raridade.
 
Mapa da Barra da Vagueira de 1783
 
Tenho mesmo pena de, aquando da edição de João Sousa Ribeiro[1] não ter possuído esta imagem cartográfica –e tanto a procurei! – pois ela é,sem duvida,a melhor representação que conheço da Barra da Vagueira. Que veio resolver a grande crise lagunar do Séc. XVIII, salvando vidas, libertando as populações da tragédia das pandemias -que dizimaram cerca de 2/3 da população na região – trazendo de novo vida á Laguna.Permitindo o reinicio do sonho das gentes.
Mas  o mapa levanta algumas questões curiosas, que assinalo:
1-      A representação incide com clareza e evidência, sobre a barra da Vagueira, aberta em 1757 a expensas totais por essa figura ímpar aveirense, o Capitão  mor João Sousa Ribeiro, para nós a maior figura da história de Aveiro. Ombro com ombro a José Estevão.
2-      A representação  assinala com rigor a  veia do canal mais profundo. A largura da barra que chegou a ultrapassar as 250 braças, permitia, ainda à data,   fácil acesso e boa manobra interior a navios de alto bordo.
3-      Contudo detectava-se já um problema de instabilidade nas imediações da Barra.O cabedelo norte começava a desaparecer, e corria-se o risco de romper, desfazendo a barra.
4-      E é por isso que olhando atentamente o mapa se nota marcado em duas linhas XX (avermelhadas),  uma obra projectada de intervenção, que consistiria em fazer um paredão de ligação do cabedelo à ilhota central, o que desviaria certamente as águas, evitando a pressão sobre o cabedelo. 
Aqui  envio esta preciosidade, mapa que como os anteriores(e outros a chegar) me foram gentilmente cedidos por Rui Bela, do seu acervo RIALIDADES:
 S F  Nov 2013





[1] Fonseca,Senos in «O Pai da Pátria João Sousa Ribeiro»

sexta-feira, novembro 15, 2013


Mapa de 1867


No seguimento do mapa ,cópia rara,que mostrámos no ultimo blog,vimos agora  trazer nova carta representativa da zona da Ria de Aveiro,em data próxima ao final do Séc XIX(1867),registo muito curioso  a  que raramente se tem acesso,e onde se podem analisar as seguintes particularidades da zona envolvente da  barra aberta, em 1808.
 
 
Registemos:
1-      Nesta representação pode ver-se o dique que cortava as águas para o Canal de Mira (comportas).E foi sobre ele que irá ser executada a 1ª ponte das DUAS ÁGUAS (1861).
2-    Nesta representação é já assinalada a ponte da Cambeia, que dava acesso á estrada para Aveiro,construida em 1865.
3-      O Farol da Barra de Aveiro, logicamente, não nos aparece representado,pois  à data, estaria em construção (que só terminaria em 1893).
4-     O Canal de Mira aparece-nos praticamente assoreado,sem ligação franca ao mar.Situação que só seria corrigida com as obras no «Triangulo» da separação das duas águas,e o retirar das comportas.
5-      Curioso ,sem duvida,é o  rigoroso desenho da ilha do Posso,que foi pertença de João Sousa Ribeiro[1]e a ilha do Monte Farinha.
6-      Pode detectar-se o que mais tarde viria a ser o esteiro(canal ) de Oudinot,embora  com um traçado ligeiramente diferente do existente até ao século passado.
7-      Muito curiosa, a restinga situada atrás do Forte (Novo),praticamente dividida em duas por uma entrada de águas.Esta restinga corresponde à zona onde hoje se situa o Porto Comercial.
Pelas razões expostas,e porque o mapa é uma raridade(feito chegar ás minhas mãos por Rui Bela),julgo de interesse a sua divulgação e as  minhas chamadas de atenção.

 

 SF- Nov 2013

 

 

 

 



[1]  Fonseca,Senos -«O Pai da Pátria»- João Sousa Ribeiro

domingo, novembro 10, 2013



 Ao  crico....

Em um destes dias da semana, que hoje termina, logo de manhãzinha, aprestava-me eu para o exercício físico diário, matinal, fiquei pasmado como espectáculo que se me deparou, ainda mal tinha transposto a porta.


Dezenas e dezenas de pequenas embarcações apinhavam-se na c’roa da Biarritz. Na sua beirada  uma multidão de gentiaga gadanhava com as cabritas as areias que a maré punha a descoberto.

Olhando mais para Sul,constatei existirem outros dois grandes bancos de pesca  da apanha do crico: – um em frente à antiga mota das barcas, e um outro já embrenhado no canal de Mira.

Fui observá-los, tentando fazer um calculo das embarcações envolvidas neste esforço de pesca :  eram cerca de 250,num total de MIL!!!!!mariscadores(e mariscadeiras) embarcados.
Espectáculo deslumbrante. Uns nas bateiras(ou chatas que hoje substituem o bateirame),cabritando de dentro; outros na c’roa, gadanhando,enquanto o mulherio  passava o crico   para as nassas,  para logo depois o lavarem à borda,ensacando-o de imediato.

Abordando uma tripulação, inquiri qual seria a média da apanha por embarcação. Cerca de 200kg!!!.Isto significa, apenas, que neste canto da Ria se pescam por maré mais de 5 Ton,que segue logo para Espanha.

Ora se pensarmos que do outro lado (canal de Ovar) o esforço de pesca é igual, senão maior, constata-se  como ainda hoje a Ria é, um celeiro  pródigo para a sustentabilidade da pesca artesanal.Cujos réditos  superam  o valor vendido em lota, da pesca costeira. E há que admitir que se calcula que no referente à apanha da ameijoa, apenas um quinto do valor apanhado passa pelas malhas do controlo.

Durante toda a semana tem sido uma azáfama. A apanha continua e o berbigão está simplesmente esplendoroso.










Esta apanha do crico (trato deste assunto no livro «Bateiras», em fase de conclusão), vem de tempos longínquos, tendo sempre uma importância fundamental na actividade piscatória (tendo  sido  criada, mesmo, uma embarcação própria para a sua apanha:- a Berbigoeira.


 

 

                                                                     Berbigoeira c/sarilho

Enfim: do meu terraço o dia surge esplendoroso de vida. Bendito o sítio que em tempos escolhi .Aqui sinto-me defendido das agressões da vida. Rendido à  grandiosidade  da natureza, com o olhar encharcado  desta   luz     imaculada,a   sublinhar e dimensionar  estas figuras            humanas. Por vezes dando-me a ilusão da eternidade.
SF  Nov 2013
 

quarta-feira, novembro 06, 2013





   Mapa de 1801


Através do Rui Bela que consistentemente vai acumulando o mais extraordinário espólio sobre a Região, vieram parar-me ás mãos ,para decifrar, três preciosidades.

Hoje exponho e comento,a primeira: o  mapa de David Rumsey e Jonh Carry que se pretende seja de 1801.


                 



 Ora este mapa, datado de 1801,curiosissimo,de uma raridade assinalável , levanta-me uma série de dúvidas:

           1- Atente-se que o nome de Aveiro,refere uma hipotética designação de ou Nova Bragança  .No meu livro «O Pai da Pátria- João Sousa Ribeiro» relato este acontecimento p 137. E se é certo que o Prior da igreja de S Miguel,com medo das represálias do Marquês de Pombal  após o regicídio de  1758 sobre D  José I, alvitrou a hipótese da mudança de nome, o certo é que oficialmente, tal propósito nunca tal aconteceu, E como referido no livro  referido, foi precisamente  por interferência de João Sousa Ribeiro que Aveiro -Villa, foi elevada a Cidade. Não é pois compreensível a referência  no Mapa.
 
            2- A Barra, na posição que tem hoje, e que corresponde ao que está representada no mapa, só foi aberta em 1808.Como poderia então estar já formada como se representa no mapa? Nessa data -cerca de 1800 -em melhor ou pior estado, a barra, era a aberta pelo referido Cap-mor João Sousa Ribeiro  (1757) próximo da Vagueira. Por isso a data de 1801 parece-nos absolutamente errada.

             3-Muito interessante é sem duvida  a baía referida com alguma exactidão no Porto de Mira.
Duvidamos contudo que nessa data a  baía, tão larga e espaçosa (foi um portinho de média dimensão que serviu a Gândara),ainda existisse com aquele aparato. Esta representação parece-nos recolhida do mapa de Joan Blau (1665),onde aí sim, o Porto de Mira é assim desenhado.

              4-O Mapa ,contudo, tem uma preciosidade. Marca como nenhum outro até à data ,que conhecemos, o nome de todos os lugarejos.E salvo uma ou outra discrepância ,parece-nos correcto.
 
                    E assim sendo, apenas duvido da exactidão da data que lhe é atribuída.

     SF (Nov 2013)