terça-feira, novembro 24, 2015



                                  

Ao fundo á esq pode ver-se o mirante do Prédio

O Palácio dos «CARTAXOS» ardeu. 

 Noticia chegada de Ílhavo, dava-me conta  que,  pela madrugada, a Rua Arcebispo Bilhano(Rua Direita) terá vivido em  sobressalto, causado pelas labaredas que deflagraram do prédio dos «Cartaxos», nela situado,pedaço material da história da urbe.               .

E assim lá se vai mais um marco histórico que marcou uma época, quando Ílhavo era uma próspera Vila em  procura de afirmação urbana.

Este prédio dava para o Largo do «Rossio» (também na gíria conhecido por largo da Capela),pois  assim se chamava o espaçoso (?) largo que o ladeava pelo poente.Largo que,curiosamente, tinha a norte, o edíficio onde se albergou no Sec XIX a Philarmónica Ilhavense.No Largo  deu  a 1ª Banda de ílhavo, alguns concertos,muito apreciados pela população, que vivamente interessada, ali acorria em alvoroço.
O Palacete terá sido mandado construir no ínicio do séc.XIX, por um tal João António Cartaxo, emigrante no Brasil. Terá pasado para sua irmã Maria Gonçalves de jesus,casada com  Manuel Teles, progenitor da família Teles.

O palacete dos «Cartaxos»,assim lhe ouvi muitas vezes chamar,foi  sede do Tribunal  dos Orfãos e, mais tarde, ali esteve instalado o Centro Republicano.

E ainda, posteriormente,  lá terá estado instalado o Sindicato dos Mareantes(assim creio ter sido designado)

No primeiro decénio de novecentos,  a Câmara Municipal de Ílhavo terá entrado  em contacto com os proprietários(já então, como regista a acta  da CMI, a Familia Teles ) com a pretensão de adquirir o prédio, e aí instalar a CMI (até ali  instalada  no Largo do Oitão).Admitia, a Câmara, disponibilizar o R/C para a Associação dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, que ali teve guardada a bomba braçal, após 1894. 


Ao fundo o prédio e o seu mirante(foto de JA Ramalheira)

Chegou a acertar-se  um valor, mas certo é que a Câmara desistiu da ideia, e iria fazer obras no  Convento  das Irmãs de Calais, que entretanto, teriam, pela calada da noite, fugido  e tudo abandonando, em 1910.

No Palacete nasceu o poeta Quintino Teles.

Até hoje, creio,o prédio encontrava-se desabitado..

SF

Nota. João Teles e Maria Gonçalves terão,em 1873, comprado o prédio em frente á Farmácia Senos (então Cunha) ,obra notável de azulejaria .Ora neste prédio nasci eu.

domingo, novembro 15, 2015



AVISO : este Blog contém matéria que pode ferir susceptibilidades a senhoras virgoleiras
                o autor


 Do João da Ega, da saga dos Maias,cpersonagem rica,com quem me envolvi de perto, no último livro «Os Maias na Costa-Nova» recebi esta carinhosa missiva:

Mon chèri ami:

Venho agrdecer o postal que me enviou desse altar que a natureza criou, para que os homens  fizessem da viagem experimental,que é a vida,um hino ao espírito.Da janela do palacete dos Pinto Basto,ao admirar o nascer do sol,graimpando lá das seranias,parecia -me, a mim, pobre mortal, que vivia muito mais intensamente,ao fazer parte desse acordar  esplêndido a provocar  o bulício de tudo quanto ,pousado ou adormecido na Laguna parecia acordar..
Sempre que aprouver, faça -me renascer «do Ega» que anda aqui,novamente, perdido, cumprindo a sina com que nos carimbou o nosso criador, Eça de Queiroz.
À bien tôt...

João da Ega
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------E Porque hoje é domingo,resolvi responder ao meu caro Ega

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Caro Mon ami João da Ega

Os meus efusivos cumprimentos, que solicito transmita com intensidade ao nosso comum amigo Carlos da Maia.
Venho dar -lhe conta de que resolvi renovar a V estadia aqui.E envolvê-los de novo numa nova, aventura e estadia,entre nós.

Para adoçar os dias e lhe relembrar  os tempos aqui passados, envio-lhe  um novo postal das suas conhecidas, Tibéria e Josefa, que ajudaram a lhe adoçar -eu não sou de bisbilhotices,descanse!-os dias aqui passados.
Até sempre.
Senos da Fonseca

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Postal da Costa-Nova                                     



 O que valeu ao «Cantigas»  é que  o raio do canário …era canária….

Intriguei-me nestes últimos dias, de nunca mais ter posto,a vista, à  Tibéria e à  Josefa, que como  por encanto desapareceram do mapa. Afinal, nesta ultima  segunda-feira,  novo encontro.  E fiquei a saber porque se eclipsaram: peixeiras na  praça ,esta fecha às segundas. E é  só neste dia que elas vêm desenferrujar as pernas.
  Senhor :dantes era uma fona .Daqui p´ra Ibalho,fazer a venda e voltar  pela noitinha ,derreadas, esgalfas ,mais tesas que o carapau ressequido que não tivera freguesa..Aí sim (!) é que estas perninhas que agora parecem mijadas(com sua licença) eram roliças ,duras e torneadinhas. Ai do zamparilho que se astrevesse a meter-se no meio delas.
-Era assim, era…. ajunta a Zefa. Às vezes, era já noitinha, e o que valia era que aquele caniné do Labareda nos esperava .Até  que todo o pessoal arribasse à Maluca, feita a venda na Vila..
-Atão hoje não têm nenhuma estória para me contar? interroguei eu…a meter cunfia.
-Crédo ,você parece q’ué bruxo .Olhe!...vinha agora a lembrar com a Zefa da história da  Pauseira «Canária», que era uma savelha   de se lhe tirar o chapéu. Mulher danada, de sim ò sopas. Mulher de ou  fora ou adentro a meio é que se não podia ficar.
-Conte lá Ti Tibéria….conte raios que sou todo  interessado.
E a Zefa não se fez rogada.
- A  Pauseira tinha na sua casinha, ali nas dunas, um canário que estimava muito. O raio do pássaro , um dia apareceu esmorecido .Parecia que tinha lançado um grapelim  ao trapiche  e de lá não saia,nem para molhar o bico. E pior : nem piava.O  estipor do canário,dizia o Luis «Cantigas»,o  serrazina do home da Pauseira: -dá-lhe uma «passarinha»a ver se o bicho desperta. Olha : o que o  bicho tem, é falta da «passarinha». T’ asseguro.
-Pois, quem não tem falta da passarinha és tu, «Cantigas» .Há benícias que nem lhe pões a vista em cima. A vista e o resto,raios, diz inquisilenta a Pauseira ao seu homem. P’ra ti esconjurado,«passarinha é o garrafão do tinto. Ora vai-te,que eu tenho mais  que fazer c’abanar o traseiro.
«O Cantigas» lá foi a resmungar  para a vida. A «Pauseira ficou a fazer horas para ir p’rà escorcha, aproveitando para fazer  um caldo de conduto para a ceia. A meio da manhã batem ao «portaló».
-Quem bate? E o que quer ,diz ao tempo que abre a portinhola. Cá fora, especado, o Arnaldo «Mijinhas», uma espécie de botadinho à parte, atrapalhado e nervoso, diz à Ti  Pauseira:
-O Ti Luis mandou-me aqui ,dizendo para  Vossemecê me dar «passarinha» que ele não teve tempo de lhe pôr a boca em cima.
-O Luis mandou-te mesmo ,para eu te dar a «passarinha»? Ai ele quer mesmo enfeite? Anda cá filho,que eu dou-te a dita. E agarrando o «Fininho» puxou-o a si com força, atirando-o para o catre disposta a cumprir ordens, que  Capitão manda imediato obedece.
Só que o Arnaldo pouco dado a empostas do género ,incapaz de ciar em mar tão encapelado  ,fixou com pavor à trabuzana que para ele representava  a Pauseira , e  espavorido,  dá de se libertar do corpo da fera desembolada ,escapulindo-se  ao lancão  d’alentada mulheraça.
À noitinha ,quando o Luís «Cantigas» voltou da faina,a Pauseira não esteve com meias palavras:
-Olha lá ó seu  zamparilho, atão tu agora já não te satisfazes com a «passarinha», e mandas substitutos p’rà   aconchegar?
-C’a estás tu pra aí a xanar, raios? Eu mandei o «Fininho» buscar o garrafão de vinho. A que tu chamas «passarinha», homessa (?!).
-Homessa (!) digo eu ; o que te vale é que  o raio do canário é canária. Senão a estas horas  estavas mais enfeitado que o manso do  boi  amarelo do abegoeiro Ti Aparício.
-À ganda  Ti Zefa.  Vamos lá acabar a voltinha, que para a semana vossemecê  conta-me outra. Combinado, remato eu  bardaleiro ?
-Pois atão .Se lhe der volta, apareça lá pela praça .Há lá bom peixe. O que está a dar ,agora, é  a chaputa» .De entupir uma jàja.   Olhe!...mande notícias aquele bem disposto Ega que por aqui lavrou no rego....
-No rêgo dizas tu... Zefa, que no meu nem chincou...
SF

 (foto Rosa M.Vital)

quarta-feira, novembro 11, 2015


Oh! dor….

 
Oh que dor, hoje

De ter ainda paixão
E não ter versos  para

A descrever como outrora

 
Oh que dor, hoje

De não ter  já a dor de sonhar
E passar a vida a olhar, a Ria,

Correr  célere, direita ao mar.

 
Oh que dor, hoje
De  tudo me bastar
Sem nada  que me baste…

Dizer que ainda estou vivo
Como, ausente de mim, o posso  negar?

 
Oh que dor ,hoje

Sentir nas tuas« mortes»
Que nenhuma morte apagará

Os beijos trocados entre casas, dunas e camas
Onde nos amámos.

Nenhuma  dor  será possível 
Vinda desse tempo em  que  colhíamos o vento

E nos beijávamos
Eternamente apaixonados.

 
Basta a tua lembrança, nesta casa

De sonhos onde guardo o teu nome,
Para te sentir, ausente de mim,

Presente em mim.

Oh meu amor!
Eu poderia dizer aqui tudo…

Inventar tudo o que os poetas inventam
Postos  doridos a negar a  dor,

Mas de ti,não invento nada
Sei que não voltas…

Sobre os meus pensamentos

Cai uma pedra a dizer-me
Quanto  estás longe, aqui tão perto.…

SF 10 Novembro 2015 

 

 

 

 

 

quinta-feira, outubro 08, 2015


 E agora ?

Compreendo mal as opiniões veiculadas pela comunicação social ,sobre o resultado das eleições do passado dia 4.E muito menos os Blogs que por aí correm,na «nuvem»
Contínua a fazer-se uma leitura, para mim absolutamente errada, das razões porque o PS foi derrotado.

Para mim é claro que o PS perdeu, não porque não foi capaz de ir buscar votos a um hipotético centro. Não foi buscá-los aí, porque aí, não havia nenhuns votos  para ir buscar.
Os votos que o PS perdeu foram

               Os que fugiram para o BE 

                E os que perdeu : nos que não votaram. (Convencidos que estavam, que o PS ,ao fim e ao cabo iria, se Governo ,fazer mais ou menos o mesmo, que o Governo da direita radical, tinha feito .

A linguagem do PS foi de compromisso.E com compromissos não se rompe para  buscar desmotivados. Ao não clarificar (de um modo decidido) que admitiria somar os seus votos aos votos de todos aquele que estivessem contra a coligação ,deixou sempre a duvida, de  que, afinal, se não viesse a ter a maioria, acabaria- malgrè tout - por se encostar à direita.

Claro que as esquerdas radicais ajudaram a encostar  o PS ás boxes. Numa coisa foram claros :o inimigo numero um dos radicais de esquerda era o PS. Juraram -oh se jurararam ! -  que não fariam acordos de governo com o PS, por haver linhas vermelhas intransponíveis .



Mas é claro como água, que os votos  no PS foram dos que não queriam acordo algum com a Coligação. Foram contra o Governo .

E assim, há que fazer (queira-se ou não !) uma soma dos votos que não querem este Governo nem esta política. E a maioria está  expressa nestes números : a maioria ,clara, está contra este Governo .
Não era nada chocante, então, que essa maioria governasse ,se...
E agora ?... ,perguntam-me alguns amigos..
Agora, respondo eu, é que o PS está numa posição onde tudo lhe vai ter de passar pela mão .
Para já  ruiu um tabu: finalmente o PC abriu a gaiola e soltou o passarinho :até pode participar numa governação....veja-se lá...O PC percebeu que a rua já não chega....

O BE fará o mesmo ....
E o PS vai saber exactamente o que pode fazer :

         - Ou arranja um intrincado problema a Cavaco (que o merecia  com a pressa mostrada na nomeação de Passos Coelho sem ouvir as restantes forças ,cuja soma de votos era maioritária)

         -  Ou coloca a coligação em lume brando ,apertando-a com uma tenaz na garganta, encostando-a permanentemente às cordas, socando-a valentemente quando  ela levantar, de novo, as garras contra o Estado Social.
Claro  que em sintonia com os partidos à esquerda, fixando com antecipação os pontos comuns  que justificarão o dia da rutura concertada.

Aqui está uma tarefa para a qual é preciso um hábil politico.

De resto, o problema do PS, é o problema de todos os Partidos Socialistas, numa Europa cada vez mais em crise. Estes partidos têm urgentemente de mudar de atitude e adaptar a sua linguagem e fins(e práticas...) aos novos desafios sociais. As posições estão extremadas: não há meio termo .A  luta vai ser entre radicalismos :

                   o da direita, cada vez mais servente do Capital (sem rosto ,nem bandeira)
                  e uma esquerda que  tem de romper com as hesitações  de um statuo de convivência, à espera que esse Capital se arrependa e converta. O que nunca acontecerá.

Pensar Marx, sem a experiência desastrosa do comunismo primário....Isso sim ,é fundamental...



SF

sexta-feira, outubro 02, 2015






Faláucia....só faláucia

Cai leve e fresca a tarde, num azul daqui avistado.Um azul mais pálido do que o habitual.
Sobre a ria parece pairar uma fina poeira que lhe retira nitidez.
De quando em quando,  um simples estremecer da brisa  alvorota a superfície lagunar.Que passos adiante, resta espelhosa, branda, suave.
Começa a entardecer. Lá fora, e em mim, aqui dentro.
Sinto o que vai por aí: uns pensando nunca se enganar, outos pensando que erram ,seja qual for a sua decisão.

Estas horas desenham-se inúteis, porque indefinidamente ansiosas. No meu interior a tempestade anuncia-se, nesta pretensão de me  fixar à superfície das coisas lucidas. Apetece-me colocar ali na lareira uns cavacos a rechinar, fechar a porta às notícias enxofradas vindas de fora, e consolar o meu interior.

Espero pela noite plácida, convivendo com a angústia, à falta de entretenga com a cama. Adivinho que terei pela frente  uma  lua amarelecida, quente, postada lá no alto celeste. Luz  de lamparina a querer iluminar o céu enevoado, onde  descobrirei uma ou outra estrela, tímida, a querer mandar-me qualquer mensagem.
Desassossegado, olho para trás,sem ter, sequer, saudades de nada.

Será isto ressaca de tédio provocada por ingestão excessiva, de tanta vacuidade, de tanta filáucia resmoneada, inócua, charlatã, desavergonhada.
Ou será que estou com medo de ver morrer a esperança ?

SF

quarta-feira, setembro 23, 2015





A politica desceu à sargeta....

Não sei se havia um português que acreditasse que  o processo tortuoso do Novo Banco, não entraria pelos bolsos dos portugueses(mais tarde ou mais cedo....). Fingiu-se que
eram os bancos( olha quem ! ..... só dão uma corda a quem lhes der o porco...) que iriam pagar  as asneiras! Uma ova....
Não Sr. Coelho: o seu deficit de 2014(e cujas consequências entrarão   no novo esvaziamento  dos bolsos  contribuintes, em 2016,2017,etc etc.) é mesmo de 7,2%.  Estaticamente...., tal e qual como era o deficit de Sócrates que empolou para justificar os desmandos que atirou para cima de todos  nós. Verdadeiro saque ,como nunca se viu(mas que poderá ser repetido se....)  O Sr Coelho é um tonto, posto a governar pelo capital que o marioneta,a seu bel prazer.
Perante tanta falta de vergonha, eu acredito que o PS até ganhe. Não porque o mereça, de facto. Mas tamanha aldrabice, é  mesmo  demais....
Uma equipa que quer ganhar tem de se atirar ao ataque. O PS joga apenas  a meio campo. Passa a bola, dá dois passos ,recua, lateraliza....à espera que o adversário cometa estes erros(ontem do pagamento ao FMI, hoje do deficit, amanhã « do pior» ainda.
O PS vai ganhar....ao menos isso...
Mas o que vai fazer com tão magra vitória? Essa é a questão.....
SF

terça-feira, setembro 22, 2015


CLICHÈ



Vieste invadir

O meu  espaço visual.

É com ele que sonho.

Noites e manhãs, é nele  que  viajo

Olhando  extasiado toda a paleta

Momentos e cores que me despertam os sentidos.

Não esqueças (!): sou eu que continuarei a Vê-lo

Tu levas apenas, daqui, fugaz momento.

Eu vivo nele

Ao natural

De azul vestido  encharcado na luz

Hoje enfeitado ,estremunhado, com o teu voyeurismo

Embarco nele diariamente

Por vezes amarrotado da vida

Outras vezes eufórico de mim.

Nem preciso de barco para navegar  na Ria.

Vou por ela a cantar todo a paisagem

À procura do que a Rosa viu,

Mas não descobriu.



É aqui que nascem as gaivotas.

Olha como elas voam.

Trazem saudades  do sol e ciúmes da vida

Tenho sempre a porta aberta.

para que a gaivota entre

e vá directa ao meu coração,

Cantar-me uma doce canção.



Hoje, aqui, o mar

Não cobrou ondas...

Embonitou-se  para o clichè..

E porque eu, então,

Não fiquei alheado da tua presença incerta,

A caminhar  à procura  no vento, na pedra

Iemenjá ,rainha livre

Ao encontro de um amor sem demora (?!)

SF

quarta-feira, setembro 02, 2015


 
MAR DE SAUDADE
 

Olho fixamente
Aquela luzinha, postada,
Parada
Num céu tão límpido, azul
Imenso!
Mais parece donzela
Em sono   aguardando a luz do dia,
Indiferente  à  angústia
Chorada no convés  da minha barca
Neste mar da saudade  naufragada.

 

Não levo bussola,
Nem carta de marear;
O brilho dos teus olhos,
Sinais que  nunca esqueci,
Serão os  faróis por onde me vou  guiar
Nesse  mar sideral sem fim.
Em cada galáxia onde não te encontrar
Deixarei  pedaços,  avisos de mim,
Sem ti, minha barca não voltará ao porto,
Sem ti, nenhuma ave encontrará em mim, o ninho.


 Irei à tua  procura, nem  eu sei  por onde.
Em todos os jardins do paraíso
Para te trazer  de novo .
E contigo a paixão com que te amei
Agora prometo,   te dar  o tempo...
Todo o tempo! ,que outrora te neguei
Tempo de amor, tempo esquecido
De  todas as encruzilhadas
Em que  antes me demorei.
Seremos aves  libertas  enlouquecidas.

 
Quero   me perder  nos teus beijos
Fazer deles novas estrelas
Para iluminar esta  sombra que me rodeia;
Com elas fazer um leito de rosas
Para  aí sorver  a maresia do teu corpo
 Ao meu aconchegado, sem horas, em silêncio.
Amaciar  de novo  com  as minha mãos 
A pele afogueada das tuas nádegas
Prólogo de um caminho num campo perfumado
A dar  a ilusão de que a primavera  vai continuar.

 
SF  2 Setembro 2015
 

 

 

domingo, agosto 16, 2015


 

 

Caros amigos

Minhas Senhoras

Meus Senhores

Autor

 

 

               «Ecos do Grande Norte»-  de Valdemar Aveiro 
 

E de novo -e cria-me eu já  afastado destas andanças-, a voz serena, pausada, mas sempre algo imperativa, de Valdemar Aveiro - tique que lhe vem da fundura dos tempos desarcados de chefia marinheira -, chamou por mim

 

         - João tens de voltar de novo ao lanço .

 

Traduzindo…

 

Com este ir à rede queria o Valdemar que eu lhe desatasse a bossa da coada -  ano caso este seu último livro -«Ecos do  Grande Norte- o último da quadriologia de
 
 
 uma quase auto biografia  -  que decorre nos tempos  em que andou a procurar «ecos» nas profundezas do mar longínquo. Profissão abraçada ,que desempenhou  dum modo profícuo e onde atingiu  relevante posição. A fadiga provocada pela vultuosidade da mesma, enquanto nela envolvido, pouco lhe deixou - de tempo e disposição - para a contar com lucidez quando pousou o saco no cais, definitivamente. Mas e também,talvez porque, nestas questões de evocar o passado, conveniente é dar  resguardo avisado - como se diz na gíria marinheira -que o mesmo é dizer, guardar a necessária distância aos acontecimentos, para deles ter uma visão mais límpida, transparente e  cristalina, expurgados, entretanto, dos vícios de uma avaliação próxima.  E só há um par de anos,Valdemar começou a escrever sobre esses tempos.

Debruçar-nos, agora, em sua companhia , navegando pelos meandros dos quatro livros dados à estampa , é ter o privilégio de penetrar em parte na biografia do homem - pescador, que aceitando o mando do destino, foi o autor de um dos mais bem recheados capítulos da luta incessante do homem pescador  com esse mar longínquo, inquieto e por vezes desmedido.

 Não me podia negar à nova ordem, agora recebida !

         Longe disso. Que não é meu feitio borregar às tarefas solicitadas por amigos . O pedido de um amigo é uma ordem a satisfazer com todo o gosto - direi mesmo reverencialmente -  ainda que para o seu cumprimento tenha parca qualificação. Principalmente para adequado, elegante e eloquente, sermonário, o que é o caso, quando se fala de personagem singular.E Valdemar é-o indubitavelmente.

Cumpro-a, pois..... e desde logo porque me apraz publicamente agradecer ao autor o seu contributo - precioso contributo diga-se desde logo ! - para as páginas da Epopeia que as Gentes da minha Terra ousaram escrever naquela que foi sua opção  assumida, cumprida em ousio que lhes  vem de longe. Quase de tão longe como o seu registo baptismal de 1037.  

Faço-o, sabendo o risco de comparação que a minha entibiada exposição sofrerá, no confronto com os seus anteriores apresentadores

Fico-me pois pela única  pretensão - dera que a consiga ! - de deixar um apontamento - naturalmente fugaz -, sobre a personalidade, o carácter e o traço, que enformam a figura humana de Valdemar Aveiro.E abordar ,como não poderia deixar de ser ,do seu ultimo livro.

A personalidade do autor está bem patente no conjunto de normas de conduta que exibiu ao longo do seu fadário. Provenientes umas da hereditariedade, outras colhidas no exercício da sua exigente profissão. Poderemos desde logo afirmar, sem temer desmentido, que estamos perante uma personalidade rica no seu todo.Una e coerente - no estilo e no modo de pensar/, no sentir e no actuar/, no identificar e se comportar/. O Valdemar - pouco ou nada  esconde .Lê-se no seu rosto, com extrema facilidade, o que lhe vai no interior da alma. O rosto, é nele, uma demonstração viva das paisagens que lhe povoam os sentimentos interiores. E por isso nos é fácil descortinar em Valdemar a paixão, o desagrado, a ternura - e também a irritação - na escancarada exterioridade da sua «interioridade».

         O carácter de Valdemar foi-se elaborando ao longo da vida, como resultado das influências psicológicas, sociais e culturais, que sobre ele desabaram. Poder-se-ia aqui, antever uma dificuldade. O hermetismo da profissão, o distanciamento dos   uma cultura viva,presente, eram - como o foram para uma maioria dos colegas de profissão - um terrível e redutor anátema a sobrelevar. Mas o Valdemar soube suplantar esse distanciamento inerente à profissão Estamos perante  um ser dialogante por excelência, introspectivo,  próximo, que  convence  por via da persuasão de onde lhe provém a necessária autoridade. Essência primária para o cabal desempenho da sua missão -  no seu caso obtida mais pela via do consentimento dos mandados, do que  por imposição a qualquer preço.

Culturalmente, soube munir-se - em quantidade e qualidade possíveis - de  leituras fundamentais que lhe  permitiram compensar o afastamento forçado de outras alternativas  .Passíveis de o enformarem mais facilmente, mas talvez não tão solidamente. Terá lido  muito.Mas mais importante : - sobre o que leu, exerceu o acto de pensar, avaliar e reflectir.         

Fixemo-nos um pouco sobre o traço - ou se assim quiserdes - na postura previsível em Valdemar Aveiro. Ao navegar  pelos seus livros, apercebemo-nos  estar perante uma figura constante, segura, arredia de imprevisibilidade, respondendo de igual modo - com o mesmo tipo comportamental - a situações de estímulo diferenciadas. Pela via da

Caros amigos :

 
Podemos então prosseguir viagem pelas páginas dos« Ecos do Grande Norte», agora mais despachados, sublinhando que o autor - Valdemar Aveiro -, é um arquétipo que se pautou pela permanente e quase obstinada negação do  fácil, e ou, do circunstancial.  Exibiu  uma granítica resistência aos  desafios que a vida lhe foi oferecendo - o que sucedeu com rara prolixidade, diga-se - obrigando-o, ora a pisar um chão pedregoso, penoso e traiçoeiro. Outras  vezes ao contrário, escorregadio, movediço, lodoso. Fosse qual  fosse o chão da     , Valdemar procurou sempre nele fincar os pés na  procura   onde demonstrar  a sua singular individualidade, sedenta de se alcandorar a lugar de destaque que acreditava  merecer.

Reafirmada a minha pouca destreza para tamanha tarefa, resta-me o brio de bem fazer. Tentarei que a neblina da minha disartria se não transforme em névoa cerrada, negra e túmida, capaz de impedir a expectante assistência de divisar o posicionamento de Valdemar Aveiro, mergulhado numa vida de «excessos humanos» que, no dizer de Valdemar Aveiro é «cruzada de nómadas  feita  em todos os sentidos, num deserto infinito onde o vento arrasta um hálito salgado, espécie de espuma amarga que tudo pica e queima» .

Desde logo situemos o autor, no espaço geográfico e no tempo, sem o que, o retrato «à la mimuta» ficará irreconhecível.

Mesmo que ele próprio não tivesse expresso nas primeiras linhas do seu «80 Graus Norte» a assumpção da sua condição de um «ílhavo» - aqui nascido e criado ,pelo menos até á juventude, tendo por isso tempo bastante  para lhe beber da seiva identificadora -por diversas vezes ao longo da sua obra, Valdemar  exibe com orgulho  os galardões da sua origem natal. Já lá vão quase oito décadas, quando  para os lados da Rua Nova, num esconso beco- um dos muitos capilares que alimentam as veias daquele povoado e onde se amontoavam as gentes humildes - pescadores, sardinheiros e marnotos - que Samuel e Maria Aveiro, gentios iguais,  viram chegar o seu rapazelho.

Ele é pois por nascimento :um «ílhavo» .E até diremos: se há figura que tão cabalmente se enquadre nos tiques que configuram esse perfil de gente inquieta, obstinada e saltitante, gente inconformada com o destino, obcecada com a pretensão de o subverter a seu favor, o Valdemar é incontestavelmente o protótipo fiel de um deles. Um «ílhavo» no ser e modo de estar. No carácter, no traço e no temperamento.

Valdemar quando no berço, quiçá simples canastra desempachada para o aconchegar - berço pobre na farpela, mas milionário nos afectos - aspirou o primeiro perfume evolado do salgado da mar: a chamada maresia. Aroma doce/acre, com salsugem misturada, estonteante e penetrante, verdadeiro  consolo para alma e remedeio para o corpo - prodigamente espargido pela natureza sobre a terra que  lhe abriu os braços.

E no ensaio dos primeiros tropeções pelos becos nascidos ao desbarato das ruelas da vila, foi contactando com as gentes da terra. Gentes, filhos de outras gentes, que  há séculos vinham escrevendo laudas imensas onde se amontoavam  golpes de arrojo e audácia,  para suster o endemoniado rancor, e a gana danada desse mar, quebrando-lhe a ira dos seus estrambotos. Então - ele o diz num dos seus escritos - reparou, desde logo muito cedo,  naquelas figuras  simples, que com o cestito do conduto no porta bagagens das bicicletas, lá iam para o apresto dos seus lugres : - que a hora de largar se aproximava.

 Inevitável que não ousasse sonhar ser um daqueles.

Os miúdos desse Ílhavo do passado, «começavam bem cedo a sentir a nostalgia dos carinhos, a tortura dos abandonos - espécie de exílio onde a saudade e as lágrimas alternavam com a fome e a luta pela vida», acolhendo-se ao chamamento, qual cantilena soprada em búzio perdido nas lonjuras do mar, por onde andavam os seus, encavalitados  no dorso hercúleo das ondas,E para junto dos quais pretendiam partir. O desafio era conto e chamamento, oferta e encantamento, a que só uns poucos logravam escapar. 

Mas para isso acontecer, Valdemar foi obrigado a tragar do pão azedo que as mãos do diabo amassou. E é dessas suadas etapas que nos foi dando conta , ao referir as suas habilidades de tosquiador de arraia miúda - no Jaquim Panela. Já que na terra, os Srs. Capitães tinham barbeiro adequado ao seu estatuto de classe distinta - O Leopoldo ;  e  logo o vemos  largar a tesoura, trocando-a pelo malho com que se exercita a bater o duro ferro  na bigorna, malhadelas de onde certamente lhe terá vindo o exemplo de tenacidade, que tão útil lhe foi p’ra vida. Mas o ensaio para ser homem, ainda lhe exigiria maior tributo, saldado na tarefa de ajudante de pedreiro. E terá sido aí que intui que a construção é tanto mais segura, quanto mais sólida for a sua base de apoio, facto sobre que, atentamente, reflecte. Aquele tirocínio esfalfante, exsudado, principio penoso de vida na idade em que outros mais bafejados aproveitavam para, despreocupadamente, dar uns chutos na trapeira, foram, no dizer do autor, «amadurecimento para, chegada a idade dos quinze anos seguir ao encontro» da chamada, e lhe dar idêntica resposta, a mesma que os seus anteriores - seus avós - tinham eles, também assumido.

E em um dos seus quadrigêmeos , acompanhamo-lo moço de Câmara e do Convés, embarcado no Lugre Viriato, um daqueles tradicionais lugres, palco privilegiado de actos de destemor demente, sem os quais a Faina Maior não teria passado, de um menor e  «vulgus» acontecimento. E o que vamos descortinar no moço auto-biografado - que julgamos merecedor de maior realçe - é a sua insinuação junto do Senhor Imediato, que, perspicaz, certamente não deixou de notar «o frenesim com que o rapazito se atirava, terminada a tarefa na ré - limpa a mesa, levantados as malgas da chora, e aconchegadas as cobertas dos beliches para onde na mor das vezes os senhores oficiais se arremessavam para umas breves horas de descanso, extenuados, enfarpelados e com as botifarras apegadas aos pés, - lesto e solícito, afadigado, a cumprir as pesadas tarefas do convés, no trote, na escolha de cabeças e fígados, a baldear etc. etc . Tal entrega não enganava o atento imediato, permitindo-lhe a premonição certeira de ver no mocito, matéria prima suficiente para dela enformar um futuro oficial da pesca. E não deixava mesmo de sentir, curiosidade pela apetência do fedelho para a leitura dos livros, que esquecidos na prateleira aguardavam os dias de capa à vagalhoça onde sobraria tempo - se  disposição houvesse - para lhe pôr os olhos em cima.

Foi tempo de o autor nos fazer perceber que o «moço do Viriato» -  já então - não teria muitas dúvidas sobre o rumo que queria dar à vida. Cada vez se lhe desenhava com mais nitidez no espírito, sem tibiezas, o desejo - o sonho ! - de atingir o oficialato. Essa iria ser - posto o saco no cais - a próxima etapa da sua vida

Passados que foram meia dúzia de anos em que de um modo sôfrego acumulou os anos lectivos que lhe deram acesso à Escola Náutica, eis que   sobe de novo a escada do portaló para se apresentar no Santa Mafalda, agora já, praticante de Oficial. Desígnio cumprido, é chegada a hora da afirmação ; o estatuto era agora, outro já. Só lhe restava queimar as etapas em aprendizagem atenta para, quando chegada a hora, concretizar o que desde há muito ambicionava.

Mas agora, a sua proveniência de gentes sem recursos, sem recomendações ou conhecimentos que o ajudassem, sem hissope bispal a espargir a sua entrada no Clube dos maiorais, tal falta - temia Valdemar um pouco complexadamente, então -, poder-lhe-ia ser perniciosa para uma afirmação, que ele queria fosse meteórica, ou pelo menos inusual, jeito com que se habituara a olhar a vida. Porque o Valdemar não queria, simplesmente - e só ! - afirmar-se. Não!!!, o Valdemar, agora, queria satisfazer a ambição, de não ser - apenas e só, mais um -, mas, ser um - DIFERENTE.

E um dia,sonhando com o eldorado em outras bandas,ei-lo emigrante. E como emigrante sofreu as agruras bastantes,para, desiludido, regressar. E pegando  de novo no saco de viagem, volta aos mares do Norte, disposto a vencer.Teve de vencer ingratidões que nunca perdoará.Que homem que se não sente...não é filho de boa gente.e o Ti Samuel Aveiro,era-o.

.Mas recebeu também afecto, de quem o queria de volta.E mais umas viagens, e chegaria o dia em que na ponte do «St Joana», já capitão, deu a ordem: larga a rede....

E fui um pulinho de tempo, o suficiente para um dia dar um salto para o navio da sua vida: o excelente «Coimbra». No Coimbra  abriu o livro ...e deu a lição de cátedra.

 

 

 

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Terminados o vai-vem das viagens, esfalfado por tão desarcada vida, é chegado o tempo de o autor conviver com as saudades - mas e também -com os fantasmas que sempre perduram da mesma. Fantasmas que regressados à memória no rebobinar do filme, se projectam agora com mais nitidez e nos deixam (por vezes) estarrecidos - ou pelo menos resfriados - quando intuímos que as coisas se poderiam ter passado de outra forma bem diferente. É que mesmo os melhores itinerários pessoais não estão imunes a escolhos pontualmente neles semeados.

É tempo para avaliação distanciada, em exorcismo de consciência inquieta na procura da verdade e da compreensão do que fomos, e porque o fomos. Para uns, avaliação intima guardada a sete chaves no mais profundo da consciência. Para outros - felizmente é o caso do autor - dando-nos o prazer de partilhar as suas vivências e experiências, transmitindo-as com rara sensibilidade, a que acrescenta apreciável garridice.

Como ele próprio  afirma, insuflando vida nas recordações arquivadas,  para projectar no futuro um sonho do passado.

O que fomos, é, sempre ao fim e ao cabo, um produto das circunstâncias. E Valdemar não se esquivou a muitas várias com que  sucessivamente  foi deparando.

O autor neste ultimo  recordar, neste livro dos« Ecos do Grande Norte», traz consigo e no-las oferece, figuras circunstanciais, algumas mesmo marginais, projectando-as em curiosa  dimensão humana, mesmo quando dá relevo aos seus menos adequados padrões sociais, ou até enaltecendo, pontualmente, pequenas desvirtudes virtuosas da sua fraqueza..

Sem dúvida ! : - estamos perante um assumido romântico da escrita.  Estamos indubitavelmente e desde logo, perante um grande contador de estórias, não sei se algo gongórico por vezes,talvez um pouco indisciplinado - o que é estranho em quem se afirmou pelo oposto - mas,  acima de tudo, afirmando-se como  um   cerzidor de páginas escritas de elevado cunho  humanista.

 

 

Meus Amigos:

 

Senhoras e  Senhores :

É verdade- reconheço-o facilmente-que este ultimo livro não tem o fulgor épico do  «80 Graus Norte», onde existia um capitulo IX bem ao jeito dos Lusiades, preenchido com longas e pitorescas - e apimentadas ! - estórias, contadas no jeito muito peculiar, muito próprio e inconfundível do autor. Em St Jonhs, onde a costa faz uma enseada curva, e as águas amansam, ainda o navio não passaria amarras, já os olhos gulosos e o desejo incendiado, procuram no cais de St. John’s - e aqui peço licença a V Exªs para citar o poeta - “por entre ramos de várias cores… lã fina e seda diferente, que mais incite a força dos amores …fazendo-se por arte mais fermosas. De uma os cabelos louros de ouro o vento leva”

O curioso é que Valdemar,aí, na sua descrição da caçada às ninfas (Betty, Milicento, Carol’s e Mary’s, Ramonas, etc.), mais nos parece - e volto a socorrer-me do vate –

Cão caçador, sagaz e ardido.  

Que Salta na água e da presa não duvida

Nadando vai e latindo …

Oh que famintos beijos

Que afagos tão suaves ! Que ira honesta !

         com mil refrescos e manjares,

         vinhos  e odoríferas vitualhas

         os esperarem  as ninfas amorosas de amor feridas

para lhes entregarem ,quanto delas os olhos cobiçam.

Contador exímio, insinuante conversador, sagaz apreciador do belo feminino, o Valdemar - acreditem - é daqueles que  «o que com cem olhos vê …o que vê, com mil bocas apregoa»

Meu caro Valdemar :

Parafraseando o nosso comum amigo Paradela :

         - Ah meu gande malandro. Julgavas que eu não te lia com a atenção suficiente para não perceber de que chegada a hora, até o Capitão se atirava vestido e calçado, 

a matar na água o fogo que nele ardia”!..  como diz o poeta ?...   

 

Meus Senhores

 

Minhas Senhoras

 

Detenhamo-nos ainda então no livro, «Ecos do Grande Norte».

Não ousarei dizer que é,pois o melhor Longe disso. Mas é claramente um remate dos anteriores, talvez uma busca de algo que teria sido esquecido na «sacada»  virada  dos anteriores.

 

 

Os  livros de Valdemar  são  como uma pescaria, em que nó a nó, se ata a rede,e malha a malha se vai construindo, para «caçar» os seus leitores. E que boa sacada já tem dos ditos. A rede que tece, como nas pescarias, tem cortiça(boias) que a faz nadar em cima, e chumbada (ou bolas) que a faz mergulhar para os fundos. Valdemar manuseia com mestria a dita;

as ideias próprias  que deposita nos seus livros vai Valdemar buscá-las ao entendimento.  

as alheias vai buscá-las à memória.

E assim os seus livros têm peixe miúdo- é facto- quase sempre fêmea(leve), misturado com peixe grosso(pesado) das profundeza do Mar do Norte. Caçando á superfície, desfia com mestria as estórias  dos outros, apimentando-as,recheando-as, como diz, não de miolo mas salsicha esfomeada, dando-lhe um paladar mais apetecível.  Entrando no peixe grosso, percorre as «beiradas» da profissão, e desfia  a  sua dureza , a inclemência do tempo,o cavado dos seus vagalhões,  os ajustes e desajustes entre caçadores. E até com ironia  distingue aqueles que caçam nas profundezas, e «uns» outros que só caçam no restolho, onde outros já encharcaram. E semeia o tenebroso espectro do Ku Klux Clan. Numa frèchada dirigida a quem não aprecia, ou a quem lhe mordeu os calcanhares.

Há clareza nos livros de Waldemar.E isso é o mais importante.

 

Disse-nos P António Vieira que o importante é a clareza da escrita, mais do que o seu classicismo. Na escrita, aquele tratador supremo da escrita portuguesas, esclarece:

Há que pregar uma só matéria, há que  defini-la para que se conheça, há que dividi-la para que se distinga, há que prová-la...   declará-la com a razão, há que confirmá-la com o exemplo.....e depois há que concluir ,persuadir e convencer.

Creio que  nos seus livros, em grande parte,  Valdemar caminhou pelas veredas do Mestre.

 

Mas no livro «Ecos do Grande Norte» há ainda espaço para uma homenagem final. Havia in illo tempore  muitos e bons «caçadores» dos bacalhaus .Mas o humanoide tem sempre a tendência de selecionar, onde e com quem quer estar. E Valdemar foi buscar dois virtuosos da pescaria para os colocar na sua «capelinha»: um á sua esquerda, e outro à sua direita.

Um o David Càlão. Todos que conheceram o Cap.David, subscrevem inteiramente-não me enganarei porque já o ouvi de tantas bocas dos colegas- o que Valdemar dele diz: um homem bom,dialogante, calmo na reacções, amigo do seu amigo, homem de palavra, e um excepcional capitão marinheiro.

E à direita coloca Joaquim Bela. Meu parente «Ronca». E como todos os «roncas», homem simples. De uma alegria contagiante, predisposto ao lance de risco, bom marinheiro.

Não terá sido certamente fácil, a escolha. Mas bem acertada,disso não tenho duvida.

                  

Obrigado Valdemar Aveiro por no-las trazeres à memória ingrata.