domingo, agosto 16, 2015


 

 

Caros amigos

Minhas Senhoras

Meus Senhores

Autor

 

 

               «Ecos do Grande Norte»-  de Valdemar Aveiro 
 

E de novo -e cria-me eu já  afastado destas andanças-, a voz serena, pausada, mas sempre algo imperativa, de Valdemar Aveiro - tique que lhe vem da fundura dos tempos desarcados de chefia marinheira -, chamou por mim

 

         - João tens de voltar de novo ao lanço .

 

Traduzindo…

 

Com este ir à rede queria o Valdemar que eu lhe desatasse a bossa da coada -  ano caso este seu último livro -«Ecos do  Grande Norte- o último da quadriologia de
 
 
 uma quase auto biografia  -  que decorre nos tempos  em que andou a procurar «ecos» nas profundezas do mar longínquo. Profissão abraçada ,que desempenhou  dum modo profícuo e onde atingiu  relevante posição. A fadiga provocada pela vultuosidade da mesma, enquanto nela envolvido, pouco lhe deixou - de tempo e disposição - para a contar com lucidez quando pousou o saco no cais, definitivamente. Mas e também,talvez porque, nestas questões de evocar o passado, conveniente é dar  resguardo avisado - como se diz na gíria marinheira -que o mesmo é dizer, guardar a necessária distância aos acontecimentos, para deles ter uma visão mais límpida, transparente e  cristalina, expurgados, entretanto, dos vícios de uma avaliação próxima.  E só há um par de anos,Valdemar começou a escrever sobre esses tempos.

Debruçar-nos, agora, em sua companhia , navegando pelos meandros dos quatro livros dados à estampa , é ter o privilégio de penetrar em parte na biografia do homem - pescador, que aceitando o mando do destino, foi o autor de um dos mais bem recheados capítulos da luta incessante do homem pescador  com esse mar longínquo, inquieto e por vezes desmedido.

 Não me podia negar à nova ordem, agora recebida !

         Longe disso. Que não é meu feitio borregar às tarefas solicitadas por amigos . O pedido de um amigo é uma ordem a satisfazer com todo o gosto - direi mesmo reverencialmente -  ainda que para o seu cumprimento tenha parca qualificação. Principalmente para adequado, elegante e eloquente, sermonário, o que é o caso, quando se fala de personagem singular.E Valdemar é-o indubitavelmente.

Cumpro-a, pois..... e desde logo porque me apraz publicamente agradecer ao autor o seu contributo - precioso contributo diga-se desde logo ! - para as páginas da Epopeia que as Gentes da minha Terra ousaram escrever naquela que foi sua opção  assumida, cumprida em ousio que lhes  vem de longe. Quase de tão longe como o seu registo baptismal de 1037.  

Faço-o, sabendo o risco de comparação que a minha entibiada exposição sofrerá, no confronto com os seus anteriores apresentadores

Fico-me pois pela única  pretensão - dera que a consiga ! - de deixar um apontamento - naturalmente fugaz -, sobre a personalidade, o carácter e o traço, que enformam a figura humana de Valdemar Aveiro.E abordar ,como não poderia deixar de ser ,do seu ultimo livro.

A personalidade do autor está bem patente no conjunto de normas de conduta que exibiu ao longo do seu fadário. Provenientes umas da hereditariedade, outras colhidas no exercício da sua exigente profissão. Poderemos desde logo afirmar, sem temer desmentido, que estamos perante uma personalidade rica no seu todo.Una e coerente - no estilo e no modo de pensar/, no sentir e no actuar/, no identificar e se comportar/. O Valdemar - pouco ou nada  esconde .Lê-se no seu rosto, com extrema facilidade, o que lhe vai no interior da alma. O rosto, é nele, uma demonstração viva das paisagens que lhe povoam os sentimentos interiores. E por isso nos é fácil descortinar em Valdemar a paixão, o desagrado, a ternura - e também a irritação - na escancarada exterioridade da sua «interioridade».

         O carácter de Valdemar foi-se elaborando ao longo da vida, como resultado das influências psicológicas, sociais e culturais, que sobre ele desabaram. Poder-se-ia aqui, antever uma dificuldade. O hermetismo da profissão, o distanciamento dos   uma cultura viva,presente, eram - como o foram para uma maioria dos colegas de profissão - um terrível e redutor anátema a sobrelevar. Mas o Valdemar soube suplantar esse distanciamento inerente à profissão Estamos perante  um ser dialogante por excelência, introspectivo,  próximo, que  convence  por via da persuasão de onde lhe provém a necessária autoridade. Essência primária para o cabal desempenho da sua missão -  no seu caso obtida mais pela via do consentimento dos mandados, do que  por imposição a qualquer preço.

Culturalmente, soube munir-se - em quantidade e qualidade possíveis - de  leituras fundamentais que lhe  permitiram compensar o afastamento forçado de outras alternativas  .Passíveis de o enformarem mais facilmente, mas talvez não tão solidamente. Terá lido  muito.Mas mais importante : - sobre o que leu, exerceu o acto de pensar, avaliar e reflectir.         

Fixemo-nos um pouco sobre o traço - ou se assim quiserdes - na postura previsível em Valdemar Aveiro. Ao navegar  pelos seus livros, apercebemo-nos  estar perante uma figura constante, segura, arredia de imprevisibilidade, respondendo de igual modo - com o mesmo tipo comportamental - a situações de estímulo diferenciadas. Pela via da

Caros amigos :

 
Podemos então prosseguir viagem pelas páginas dos« Ecos do Grande Norte», agora mais despachados, sublinhando que o autor - Valdemar Aveiro -, é um arquétipo que se pautou pela permanente e quase obstinada negação do  fácil, e ou, do circunstancial.  Exibiu  uma granítica resistência aos  desafios que a vida lhe foi oferecendo - o que sucedeu com rara prolixidade, diga-se - obrigando-o, ora a pisar um chão pedregoso, penoso e traiçoeiro. Outras  vezes ao contrário, escorregadio, movediço, lodoso. Fosse qual  fosse o chão da     , Valdemar procurou sempre nele fincar os pés na  procura   onde demonstrar  a sua singular individualidade, sedenta de se alcandorar a lugar de destaque que acreditava  merecer.

Reafirmada a minha pouca destreza para tamanha tarefa, resta-me o brio de bem fazer. Tentarei que a neblina da minha disartria se não transforme em névoa cerrada, negra e túmida, capaz de impedir a expectante assistência de divisar o posicionamento de Valdemar Aveiro, mergulhado numa vida de «excessos humanos» que, no dizer de Valdemar Aveiro é «cruzada de nómadas  feita  em todos os sentidos, num deserto infinito onde o vento arrasta um hálito salgado, espécie de espuma amarga que tudo pica e queima» .

Desde logo situemos o autor, no espaço geográfico e no tempo, sem o que, o retrato «à la mimuta» ficará irreconhecível.

Mesmo que ele próprio não tivesse expresso nas primeiras linhas do seu «80 Graus Norte» a assumpção da sua condição de um «ílhavo» - aqui nascido e criado ,pelo menos até á juventude, tendo por isso tempo bastante  para lhe beber da seiva identificadora -por diversas vezes ao longo da sua obra, Valdemar  exibe com orgulho  os galardões da sua origem natal. Já lá vão quase oito décadas, quando  para os lados da Rua Nova, num esconso beco- um dos muitos capilares que alimentam as veias daquele povoado e onde se amontoavam as gentes humildes - pescadores, sardinheiros e marnotos - que Samuel e Maria Aveiro, gentios iguais,  viram chegar o seu rapazelho.

Ele é pois por nascimento :um «ílhavo» .E até diremos: se há figura que tão cabalmente se enquadre nos tiques que configuram esse perfil de gente inquieta, obstinada e saltitante, gente inconformada com o destino, obcecada com a pretensão de o subverter a seu favor, o Valdemar é incontestavelmente o protótipo fiel de um deles. Um «ílhavo» no ser e modo de estar. No carácter, no traço e no temperamento.

Valdemar quando no berço, quiçá simples canastra desempachada para o aconchegar - berço pobre na farpela, mas milionário nos afectos - aspirou o primeiro perfume evolado do salgado da mar: a chamada maresia. Aroma doce/acre, com salsugem misturada, estonteante e penetrante, verdadeiro  consolo para alma e remedeio para o corpo - prodigamente espargido pela natureza sobre a terra que  lhe abriu os braços.

E no ensaio dos primeiros tropeções pelos becos nascidos ao desbarato das ruelas da vila, foi contactando com as gentes da terra. Gentes, filhos de outras gentes, que  há séculos vinham escrevendo laudas imensas onde se amontoavam  golpes de arrojo e audácia,  para suster o endemoniado rancor, e a gana danada desse mar, quebrando-lhe a ira dos seus estrambotos. Então - ele o diz num dos seus escritos - reparou, desde logo muito cedo,  naquelas figuras  simples, que com o cestito do conduto no porta bagagens das bicicletas, lá iam para o apresto dos seus lugres : - que a hora de largar se aproximava.

 Inevitável que não ousasse sonhar ser um daqueles.

Os miúdos desse Ílhavo do passado, «começavam bem cedo a sentir a nostalgia dos carinhos, a tortura dos abandonos - espécie de exílio onde a saudade e as lágrimas alternavam com a fome e a luta pela vida», acolhendo-se ao chamamento, qual cantilena soprada em búzio perdido nas lonjuras do mar, por onde andavam os seus, encavalitados  no dorso hercúleo das ondas,E para junto dos quais pretendiam partir. O desafio era conto e chamamento, oferta e encantamento, a que só uns poucos logravam escapar. 

Mas para isso acontecer, Valdemar foi obrigado a tragar do pão azedo que as mãos do diabo amassou. E é dessas suadas etapas que nos foi dando conta , ao referir as suas habilidades de tosquiador de arraia miúda - no Jaquim Panela. Já que na terra, os Srs. Capitães tinham barbeiro adequado ao seu estatuto de classe distinta - O Leopoldo ;  e  logo o vemos  largar a tesoura, trocando-a pelo malho com que se exercita a bater o duro ferro  na bigorna, malhadelas de onde certamente lhe terá vindo o exemplo de tenacidade, que tão útil lhe foi p’ra vida. Mas o ensaio para ser homem, ainda lhe exigiria maior tributo, saldado na tarefa de ajudante de pedreiro. E terá sido aí que intui que a construção é tanto mais segura, quanto mais sólida for a sua base de apoio, facto sobre que, atentamente, reflecte. Aquele tirocínio esfalfante, exsudado, principio penoso de vida na idade em que outros mais bafejados aproveitavam para, despreocupadamente, dar uns chutos na trapeira, foram, no dizer do autor, «amadurecimento para, chegada a idade dos quinze anos seguir ao encontro» da chamada, e lhe dar idêntica resposta, a mesma que os seus anteriores - seus avós - tinham eles, também assumido.

E em um dos seus quadrigêmeos , acompanhamo-lo moço de Câmara e do Convés, embarcado no Lugre Viriato, um daqueles tradicionais lugres, palco privilegiado de actos de destemor demente, sem os quais a Faina Maior não teria passado, de um menor e  «vulgus» acontecimento. E o que vamos descortinar no moço auto-biografado - que julgamos merecedor de maior realçe - é a sua insinuação junto do Senhor Imediato, que, perspicaz, certamente não deixou de notar «o frenesim com que o rapazito se atirava, terminada a tarefa na ré - limpa a mesa, levantados as malgas da chora, e aconchegadas as cobertas dos beliches para onde na mor das vezes os senhores oficiais se arremessavam para umas breves horas de descanso, extenuados, enfarpelados e com as botifarras apegadas aos pés, - lesto e solícito, afadigado, a cumprir as pesadas tarefas do convés, no trote, na escolha de cabeças e fígados, a baldear etc. etc . Tal entrega não enganava o atento imediato, permitindo-lhe a premonição certeira de ver no mocito, matéria prima suficiente para dela enformar um futuro oficial da pesca. E não deixava mesmo de sentir, curiosidade pela apetência do fedelho para a leitura dos livros, que esquecidos na prateleira aguardavam os dias de capa à vagalhoça onde sobraria tempo - se  disposição houvesse - para lhe pôr os olhos em cima.

Foi tempo de o autor nos fazer perceber que o «moço do Viriato» -  já então - não teria muitas dúvidas sobre o rumo que queria dar à vida. Cada vez se lhe desenhava com mais nitidez no espírito, sem tibiezas, o desejo - o sonho ! - de atingir o oficialato. Essa iria ser - posto o saco no cais - a próxima etapa da sua vida

Passados que foram meia dúzia de anos em que de um modo sôfrego acumulou os anos lectivos que lhe deram acesso à Escola Náutica, eis que   sobe de novo a escada do portaló para se apresentar no Santa Mafalda, agora já, praticante de Oficial. Desígnio cumprido, é chegada a hora da afirmação ; o estatuto era agora, outro já. Só lhe restava queimar as etapas em aprendizagem atenta para, quando chegada a hora, concretizar o que desde há muito ambicionava.

Mas agora, a sua proveniência de gentes sem recursos, sem recomendações ou conhecimentos que o ajudassem, sem hissope bispal a espargir a sua entrada no Clube dos maiorais, tal falta - temia Valdemar um pouco complexadamente, então -, poder-lhe-ia ser perniciosa para uma afirmação, que ele queria fosse meteórica, ou pelo menos inusual, jeito com que se habituara a olhar a vida. Porque o Valdemar não queria, simplesmente - e só ! - afirmar-se. Não!!!, o Valdemar, agora, queria satisfazer a ambição, de não ser - apenas e só, mais um -, mas, ser um - DIFERENTE.

E um dia,sonhando com o eldorado em outras bandas,ei-lo emigrante. E como emigrante sofreu as agruras bastantes,para, desiludido, regressar. E pegando  de novo no saco de viagem, volta aos mares do Norte, disposto a vencer.Teve de vencer ingratidões que nunca perdoará.Que homem que se não sente...não é filho de boa gente.e o Ti Samuel Aveiro,era-o.

.Mas recebeu também afecto, de quem o queria de volta.E mais umas viagens, e chegaria o dia em que na ponte do «St Joana», já capitão, deu a ordem: larga a rede....

E fui um pulinho de tempo, o suficiente para um dia dar um salto para o navio da sua vida: o excelente «Coimbra». No Coimbra  abriu o livro ...e deu a lição de cátedra.

 

 

 

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Terminados o vai-vem das viagens, esfalfado por tão desarcada vida, é chegado o tempo de o autor conviver com as saudades - mas e também -com os fantasmas que sempre perduram da mesma. Fantasmas que regressados à memória no rebobinar do filme, se projectam agora com mais nitidez e nos deixam (por vezes) estarrecidos - ou pelo menos resfriados - quando intuímos que as coisas se poderiam ter passado de outra forma bem diferente. É que mesmo os melhores itinerários pessoais não estão imunes a escolhos pontualmente neles semeados.

É tempo para avaliação distanciada, em exorcismo de consciência inquieta na procura da verdade e da compreensão do que fomos, e porque o fomos. Para uns, avaliação intima guardada a sete chaves no mais profundo da consciência. Para outros - felizmente é o caso do autor - dando-nos o prazer de partilhar as suas vivências e experiências, transmitindo-as com rara sensibilidade, a que acrescenta apreciável garridice.

Como ele próprio  afirma, insuflando vida nas recordações arquivadas,  para projectar no futuro um sonho do passado.

O que fomos, é, sempre ao fim e ao cabo, um produto das circunstâncias. E Valdemar não se esquivou a muitas várias com que  sucessivamente  foi deparando.

O autor neste ultimo  recordar, neste livro dos« Ecos do Grande Norte», traz consigo e no-las oferece, figuras circunstanciais, algumas mesmo marginais, projectando-as em curiosa  dimensão humana, mesmo quando dá relevo aos seus menos adequados padrões sociais, ou até enaltecendo, pontualmente, pequenas desvirtudes virtuosas da sua fraqueza..

Sem dúvida ! : - estamos perante um assumido romântico da escrita.  Estamos indubitavelmente e desde logo, perante um grande contador de estórias, não sei se algo gongórico por vezes,talvez um pouco indisciplinado - o que é estranho em quem se afirmou pelo oposto - mas,  acima de tudo, afirmando-se como  um   cerzidor de páginas escritas de elevado cunho  humanista.

 

 

Meus Amigos:

 

Senhoras e  Senhores :

É verdade- reconheço-o facilmente-que este ultimo livro não tem o fulgor épico do  «80 Graus Norte», onde existia um capitulo IX bem ao jeito dos Lusiades, preenchido com longas e pitorescas - e apimentadas ! - estórias, contadas no jeito muito peculiar, muito próprio e inconfundível do autor. Em St Jonhs, onde a costa faz uma enseada curva, e as águas amansam, ainda o navio não passaria amarras, já os olhos gulosos e o desejo incendiado, procuram no cais de St. John’s - e aqui peço licença a V Exªs para citar o poeta - “por entre ramos de várias cores… lã fina e seda diferente, que mais incite a força dos amores …fazendo-se por arte mais fermosas. De uma os cabelos louros de ouro o vento leva”

O curioso é que Valdemar,aí, na sua descrição da caçada às ninfas (Betty, Milicento, Carol’s e Mary’s, Ramonas, etc.), mais nos parece - e volto a socorrer-me do vate –

Cão caçador, sagaz e ardido.  

Que Salta na água e da presa não duvida

Nadando vai e latindo …

Oh que famintos beijos

Que afagos tão suaves ! Que ira honesta !

         com mil refrescos e manjares,

         vinhos  e odoríferas vitualhas

         os esperarem  as ninfas amorosas de amor feridas

para lhes entregarem ,quanto delas os olhos cobiçam.

Contador exímio, insinuante conversador, sagaz apreciador do belo feminino, o Valdemar - acreditem - é daqueles que  «o que com cem olhos vê …o que vê, com mil bocas apregoa»

Meu caro Valdemar :

Parafraseando o nosso comum amigo Paradela :

         - Ah meu gande malandro. Julgavas que eu não te lia com a atenção suficiente para não perceber de que chegada a hora, até o Capitão se atirava vestido e calçado, 

a matar na água o fogo que nele ardia”!..  como diz o poeta ?...   

 

Meus Senhores

 

Minhas Senhoras

 

Detenhamo-nos ainda então no livro, «Ecos do Grande Norte».

Não ousarei dizer que é,pois o melhor Longe disso. Mas é claramente um remate dos anteriores, talvez uma busca de algo que teria sido esquecido na «sacada»  virada  dos anteriores.

 

 

Os  livros de Valdemar  são  como uma pescaria, em que nó a nó, se ata a rede,e malha a malha se vai construindo, para «caçar» os seus leitores. E que boa sacada já tem dos ditos. A rede que tece, como nas pescarias, tem cortiça(boias) que a faz nadar em cima, e chumbada (ou bolas) que a faz mergulhar para os fundos. Valdemar manuseia com mestria a dita;

as ideias próprias  que deposita nos seus livros vai Valdemar buscá-las ao entendimento.  

as alheias vai buscá-las à memória.

E assim os seus livros têm peixe miúdo- é facto- quase sempre fêmea(leve), misturado com peixe grosso(pesado) das profundeza do Mar do Norte. Caçando á superfície, desfia com mestria as estórias  dos outros, apimentando-as,recheando-as, como diz, não de miolo mas salsicha esfomeada, dando-lhe um paladar mais apetecível.  Entrando no peixe grosso, percorre as «beiradas» da profissão, e desfia  a  sua dureza , a inclemência do tempo,o cavado dos seus vagalhões,  os ajustes e desajustes entre caçadores. E até com ironia  distingue aqueles que caçam nas profundezas, e «uns» outros que só caçam no restolho, onde outros já encharcaram. E semeia o tenebroso espectro do Ku Klux Clan. Numa frèchada dirigida a quem não aprecia, ou a quem lhe mordeu os calcanhares.

Há clareza nos livros de Waldemar.E isso é o mais importante.

 

Disse-nos P António Vieira que o importante é a clareza da escrita, mais do que o seu classicismo. Na escrita, aquele tratador supremo da escrita portuguesas, esclarece:

Há que pregar uma só matéria, há que  defini-la para que se conheça, há que dividi-la para que se distinga, há que prová-la...   declará-la com a razão, há que confirmá-la com o exemplo.....e depois há que concluir ,persuadir e convencer.

Creio que  nos seus livros, em grande parte,  Valdemar caminhou pelas veredas do Mestre.

 

Mas no livro «Ecos do Grande Norte» há ainda espaço para uma homenagem final. Havia in illo tempore  muitos e bons «caçadores» dos bacalhaus .Mas o humanoide tem sempre a tendência de selecionar, onde e com quem quer estar. E Valdemar foi buscar dois virtuosos da pescaria para os colocar na sua «capelinha»: um á sua esquerda, e outro à sua direita.

Um o David Càlão. Todos que conheceram o Cap.David, subscrevem inteiramente-não me enganarei porque já o ouvi de tantas bocas dos colegas- o que Valdemar dele diz: um homem bom,dialogante, calmo na reacções, amigo do seu amigo, homem de palavra, e um excepcional capitão marinheiro.

E à direita coloca Joaquim Bela. Meu parente «Ronca». E como todos os «roncas», homem simples. De uma alegria contagiante, predisposto ao lance de risco, bom marinheiro.

Não terá sido certamente fácil, a escolha. Mas bem acertada,disso não tenho duvida.

                  

Obrigado Valdemar Aveiro por no-las trazeres à memória ingrata.

 

sábado, agosto 15, 2015




Nota .este blog é pessoal, e por isso ,de relativo interesse, senão para a sobrinhada. Lerá quem o quiser faze ,depois de avisado)


Eu e …. a Srª do Pranto

       




 São em alguns momentos contraditórias, as lembranças que me ocorrem com o festejos da Srª do Pranto, acontecimento religioso-pagão, desde sempre muito ligado à minha família paterna: os Fonsecas.Naquele tempo em que a família era como que um clã.


Não tive a felicidade de conhecer o patriarca, o Prof. Fonseca, meu avô, homem de uma personalidade muito vincada e própriaOnde a dureza, a exigência e a ética, atingiam valores de excepção (até excessivos,ouvi alguns queixarem-se...). Dele ouvi relatos que muito influíram na minha postura perante a vida. Muito ligado ao Convento, à Capela e à sua remodelação, professor da segunda Escola de Ílhavo, sua propriedade (como o eram as Escolas dos Moitinhos e Gafanha de Aquém) o Avô foi um dos maiores de Cimo de Vila. Este «maior» ,era um apelido advindo de uma célebre história.O da construção da estrada Ílhavo –Gafanha da Maluca, que se pretendeu ser financiada pelos «40 maiores», expressamente convocados para o efeito. Ora, o maior dos maiores, era então, dizia-se, o Padre Manuel Nunes da Fonseca, meu tio avô. Vamos lá saber como o Padre arranjou tal fortuna, e como a transmitiu. Nunca me falaram de tal história.
A Família esteve sempre envolvida nos festejos em honra da Senhora (a pietà à portuguesa).

O meu tio Avô, «Manel», era um exímio tocado de concertina. E para lá disso, um «cantador ao desafio», de excelência. Parecia ter resposta para todos os introitos colocados na contenda. Das redondezas vinham cantadores afamados, para se «bater» com ele, em público, em local aprazado. O Tio «Manel», era o homem que guardava o «Arco da Festa», e era na sua imensa eira que o mesmo era, anualmente reparado. Matador de porcos (para lá da sua lavra),quase que diríamos, oficial publico do ofício, a cegueira fê-lo passar as facas ao seu filho único, meu primo Manuel Fonseca. Com a recomendação de, mais tarde, elas passarem para o mais novo Fonseca. Que era eu!!!...ora vai-te …eu que não me atrevia a matar um frango, ia um dia manusear aqueles facalhões (?!)….O pior é que a família parecia acreditar. E sempre que havia matadela, lá tinha eu de ir ajudar o Manuel a limpar(lavar os gorgomilos) ao pobre bicho, a ver se estava bem amarrado pelo pernil, segurar-lhe bem o «pezunho» encolhido, e ver o espectáculo horrível do facalhão …uma…duas…três vezes…. ir buscar todo o sangue ao animal. Não aquilo não era espectáculo que me animasse a desejar ser, o herdeiro das facas ,Se bem que demonstrasse nata aptidão para com elas proceder ao desmanchar do porco.




 Bem voltemos à Srª do Pranto…

Até certa altura tudo lindo. O pior é que, chegada a idade dos namoricos, estivesse onde estivesse, houvesse o que houvesse – e quase sempre havia: – regatas, bailes etc. etc. – eu teria de comparecer, ainda que a mau gosto, em Ílhavo.E por ali ficar todo o tempo da festa.

Para lá da parte religiosa, em que não era obrigado a participar – à excepção de uma ou duas vezes acolitar o Padre Ângelo, na missa –,os festejos tinham o seu cartaz de marca, que os distinguia na emulação bairrista com os de «lá de baixo», especialmente na degustação excessiva de vitualhas e iguarias. Senhores de grandes e fartas casa, andavam de uma para a outra, em visita «às capelinhas» dos «primos», parecendo que já não se víam há anos (quando o mais certo era terem lá estado na semana anterior).Só que agora em visita mais demorada, com ida à «mesa da cozinha de dentro», se o «primo», nesse ano, tivesse recebido a «vara de Juiz».


Em casa dos meus Avós, alinhava-se uma catrefa de caçoilas pretas ,onde o «chibo» era cozinhado com todo o saber e arte:
 -Oh Virgínia (a cozinheira) cuidado :olha que o Sr Dr. é muito esquisito no carneiro. Oxalá que o Alpoim(o fornecedor do animal) ,nos tenha servido bem. Ferveu bem, na hortelã? E esta era fresquinha, bem cheirosa ?

Eu, rapazola atrevido, estava (muito) mais interessado no peito farto e eriçado da Virgínia, do que propriamente nas caçoilas. E ia fazendo de conta que estava a «vigiar» as ditas...
As caçoilas depois de prontas, muito tempo antes da festa. Eram então ensacadas, e depois penduradas na frescura do poço. Um enorme poço que mantenho ( embora sem as caçoilas….).

O almoço de 15,tinha lugar na «casa da Escola», em Cimo de Vila, no pátio enorme, debaixo de frondosa parreira.Reservado à Família mais chegada. À noite vinham jantar os amigos ( Dr Amilcar, Teiguinha, dr Julio Calisto, Tio Dorindo etc. etc.) Em qualquer das comezainas lá estava a caçoila, depois de previamente fervida três vezes (duas antes de ir estagiar no poço,e a ultima ao ir para degustação. Tinha de chegar à mesa, a ferver, em cachão. Senão era logo recambiada.

À tarde era a procissão.



 As Irmandades ladeavam os anjinhos de vestimenta a condizer, onde pontificavam as asas brancas.Que era imaginado levá-los a passear pelo céu. Vinham os andores, enfeitados, jardins prodigamente floridos, sendo o da Senhora, o último. Era seguido pelo «pálio» que albergava o Priorado, conduzido por figuras gradas da comunidade. A banda marcava o compasso,seguida por multidão que engrossava a fileira dos adeptos do Orago.

O andor….


....tinha acabado o sétimo ano, e comigo, o Zé Balseiro, o Malaquias e o Álvaro, rapaziada estudante de Cimo de Vila. Convencidos do bom olhado do Orago, todos prometemos, se as coisas corressem bem, levar o andor na procissão. Quando fomos buscar (a miniatura... veja-se bem!!!!) à «Capela do Morgado da Srª da Nazaré, constatámos que apesar de miniatura, a Senhora ( que diziam ser uma réplica pequena) era toda feita de pedra de granito, tendo um peso de se lhe tirar o chapéu. Vamos desenrascar isto… e se bem o pensámos, logo o fizemos A primeira coisa foi tirar as costas, à dita, substituindo-as por palha. Ainda por cima a procissão, nesse ano, ia dar a volta ao Cruzeiro (o que nem sempre sucedia). E lá começámos …o nosso calvário. Levar a Senhora a percorrer as vias sacras do Cruzeiro, vir à Igreja Matriz, e voltar a Cimo de Vila. Foi um caso sério. Eu e o Malaquias, à frente, mais baixos, apanhávamos com o peso, acrescido da componente da deslocação inclinada. E por vezes andávamos aos baldões. Foi preciso recorrer aos garfeiros (?,)amiúde, para nos acudir (devem ter um nome próprio, as varas com a muleta para pousio nos momentos de paragem, metidos nos varais).
Lembro-me que só não chorei por vergonha. Mas raios (!), um «Fonseca» ir-se abaixo das canetas (?!), era miserável. Depois soube, que, afinal, todos estivemos com vontade de desistir. Mas pela mesma razão, por respeito aos nossos nomes, cerrámos dentes, retesámos músculos e levámos a Senhora, sã e salva, a bom porto…(ando a descontar pecados desde então…).À noite estávamos todos encangados, a tratamento de pachos quentes, para safar as pisaduras. Aí pensei seriamente no sofrimento de Cristo a levar a cruz ao calvário...


O arraial da festa tinha lugar à «sombra» do Arco imponente.




                         Excepcional foto de Manuel Fernandes



As tendinhas dos bolos (suspiros – de que eu gostava particularmente –, bolos de gema ,cavacas, etc.); as tasquinhas de «comes e bebes», a mesa da vermelhinha (onde eu perdia tempo para decifrar o enigma),a quermesse, o balcão do tiro às latas, eram locais por onde o povo ia gastando a noite.Pelo ar havia uim cheiro a querosone, que fedia, das lamparinas que davam a luz mortiça e tremula, á mesinha da venda. 

                             Lamparinas a querosone


 Lá para as 11 da noite, havia o ponto mais esperado: -o concerto das bandas. Entre os temas reproduzidos, os assistentes deslocavam-se de coreto em coreto (lembra-me de ver a Musica Velha, sob regência do Prof.Guilhermino, e a Musica Nova, sob a batuta do maestro José Morgado, em franco despique, a levar ao rubro a assistência.Sucedendo, não raro, o desforço físico,numa sarrafuscada do caneco !),para melhor ouvir os acordes(e as desafinações…).Os maestros –ouvi dizer– tinham estratégias delineadas: logo que uma das bandas tocava uma peça de determinado grau de dificuldade, logo o outro contendor ripostava, atacando com peça, ainda (!) de mais complexa execução. Durante a exibição de cada peça reinava um silêncio sepulcral; no final, as palmas . A intensidade e duração das mesmas, levaria ao reconhecimento do vencedor do duelo.


O dia seguinte era o que mais me atraía ao largo da Capela. Era tempo para divertimento popular: foguetes que ao explodirem soltavam bonecos de papel que voavam; lançamento de cavacas à multidão(tipo S.Gonçalinho). Subida ao mastro encerado para trazer o bacalhau. O puxar da corda, a corrida de sacos, a disputa do jogo da malha etc. Este jogo popular, vindo das calendas do tempo, era praticado por equipas espalhadas pelo Concelho (ou fora dele ), que aprazavam jogos aos fins de semana, exibindo os jogadores virtualidades de precisão incríveis. Onde o posicionar do corpo, ligeiramente agachado, pés, um atrás do outro, braço esquerdo estendido servindo de equilíbrio ao braço lançador, era um espectáculo de rara beleza, em que apenas no golf encontro sincronização tão exigente.


No jogo da corda a equipa que contasse com o Carlos Fonseca era a ganhadora; o Carlos, meu primo, filho do Manuel, era um verdadeiro Apollo. Forte como um touro, de uma força braçal incomensurável, tronco hercúleo num corpo de quase dois metros..., não me recorda de alguma vez ter visto outra tão colossal figura

E VIVA A PÁTRIA!!!!!!
 

Exultava a dançar, a encolher e esticar o fole da concertina, comandando o trio de exímios concertinistas; o exímio tocador, o meu tio, o Velho Ti Manel (com os seus 82 anos) , puxava pelos concertistas: o seu filho Manuel Fonseca, e o meu pai ,também de seu nome, Manuel Fonseca. Lá em casa só eu é que desbotei….Nem bombo nem ferrinhos...coisa nenhuma....


Com o tempo, veio o desmembrar da família. Já praticamente só resto eu.
Cada vez mais, me fui separando do meu sítio. Tenho lá a casa dos meus ancestrais, que tento manter una. Difícil. E na certeza que comigo ela desaparecerá. A não ser que uma Instituição promova algo de concreto e e sólido, e a requeira. Ao visitá-la, vem-me à ideia o percurso onde me fiz homem – com montes de virtudes e mais defeitos –, e onde bebi que o gesto de Cristo, de oferecer a outra face, é lindo mas inútil. A todo o acto de violência, venha de onde, ou de quem vier, reage-se de que maneira for, mas reage-se. Entre a espada e a parede…a espada.  

Este ano fui observando os esforços de dar, à festa, uma nova roupagem. Depois de uns anos de esquecimento, obra do «troglodita esteves», que no meio da pipa de massa que andou a desbaratar, nem uns míseros tostões encontrou para a recuperação do Arco ,as coisas mudaram com o apoio de uma Junta, finalmente, a marcar a agenda em Ílhavo. O outro peralvilho, nem sabia que o «arco da Srª do Pranto» é mais genuíno, que o encomendado, delirante e fantasioso, brasão de Ílhavo.



Já se foi. Bons olhos o vejam. Entretido a dar cabo da cultura dos cagaréus.

Uma Comissão genuína, interessada e devotada à tarefa, ofereceu á parte pagã da festa, uma nova vestimenta.


                                 O «Novo Banco» da Cidade

Interessante união de gentes em volta de um projecto disposto a dar vida a uma parte da cidade onde restam, ainda, uns interessantes tiques do passado. Reavivar esse historial, recuperar tradições, unir gentes,é uma tarefa de grande interesse social. Certamente que a continuar surgirão novas ideias e projectos.

Bem o merece :um lugar de gentes diferentes.

SF