sexta-feira, dezembro 02, 2016


A Zeca fazia anos....


O Mundo está pobre sem Ti…



Aquela criança

Sem mãe…

Ai! aquela criança.



Aquele menino

Que chora…

Ai! aquele menino.





Aquele velho

Sem casa…

Ai! aquele velhinho.





Aquela mulher

Que anda na vida…

Ai! aquela mulher.





Para quê

A roda-viva, de toda

Uma vida

Dada aos outros

Sem paragem para os teus?





Para quê sonhares demais

Sem perguntares

Se o sonho transcende

A morte?...

Se sem Ti haveria

Para «eles», ainda

Sorte?





Hoje já não se faz

Fazendo…

Hoje faz-se… fazendo

Que se faz.

Não importa

Que cada vez

Sejam mais a precisar…

Já ninguém sonha

Como sonhaste…

Sempre a inventar,

Sempre a negar

A pequenez humana.





A perspectiva,

O sentido

Da fraternidade humana,

Hoje já não existe.

Nem hoje o vivem

Estes acomodados seres.

Já não se vive

Na perturbante inquietação,

Na dor envergonhada

De não ter mais nada

Para dar

Senão o vazio da mão.





A ria vai correndo para o poente.

Aqui,

Vou-me sentindo angustiado.

Não há verso, nem fogo

Que me aqueça.

Sinto-me cansado.

Nestes versos que a saudade consente

Sei que o «mundo» está pobre,

Sem ti.



SF 2 Dezembro 2016


quinta-feira, novembro 10, 2016





Vida….



A flor que hoje (há tanto!) ..
Me deste

Não era rosa ,nem cravo
Nem desmaiado jasmim.


Lembro-me: as águas do mar marulhavam
A estrelas lá no céu bailavam espantadas
Lá fora fazia frio,a cortina do vento ondulava.
Porque fazia frio,
E as estrelas bailavam ,
E as águas murmuravam?

Não soube então Te dizer
Mesmo que muito o quisera,
Porque sendo já inverno
Eras para mim, o começo da primavera.

SF -10-11-2016

quarta-feira, outubro 05, 2016


5 OUTUBRO






Dia grande

1-      Faltavam minutos para assistir à Comemoraçãos do 5 Outubro,promovida pelo PS –Aveiro, quando fui informado, telefonicamente, da estrondosa vitória – a confirmação antecipada – de Guterres. Exultei.

Recordei o almoço com Guterres   há muitos anos (perto de quarenta),ali no restaurante D. Fernando, onde comemos uma caldeirada. Lembro-me dele  muito simples, de jeans e camisa ,ainda muito novo (penso que então usava um bigodito).E recordo ter rapidamente criado, com ele, uma empatia absoluta. Procurava então afirmar-se dentro da estrutura partidária. Discutimos a criação de um gabinete de estudos, aqui em Aveiro.

Recordo uma qualidade que logo ali, num primeiro contacto, antevi:  um homem onde sobressaía uma profunda e metódica  postura, procurando uma afirmação diferente, num tempo que começava a ser necessariamente diferente do período revolucionário..

Quando abandonou «o lameiro» da política à portuguesa compreendi-o perfeitamente. Aquele não era o seu modo de estar….E dito o que disse, retirou-se sem mais interferir na vida partidária. Sem ressaibos…

Hoje o País contrai com Guterres uma enorme divida. Portugal passará, tenho a certeza, a ter uma outra imagem. Guterres é garantidamente um político ,um melhor entre os melhores.ortugal sairá dignificado e apontado pela sua acção.

Parabéns a Guterres. Um individuo superior. Superioridade que resistiu a umas manobras provocatórias de uma Europa dirigida por mentecaptos. E onde um  dito  compatriota se vendeu ao inimigo para o derrotar.E assim  derrotar o seu  País. Claro: um militante do PSD.

A superioridade de Guterres evitou que a política mundial caísse num lameiro de jogadas que envergonhariam uma Europa rendida a uma novo reich dominador.Disposto a espezinhar os mais fracos e ou os distraídos.



2-      Gostei da palestra do Prof.Romero, que  evocou  figuras grandes  da 1ª República.

Ao encontrar na assistência o único resistente do antes do 25 de Abril, o republicano indefectível, J.Silveira ,lembrei-me dos muitos 5 de Outubro  que evocámos  por esse distrito fora (Albergaria, Estarreja, Aveiro ,Ílhavo),antes da Revolução dos cravos. E veio-me á cabeça a similitude com aquela geração de «novos» que fala hoje do 25 de Abril, sem terem uma visão vivida da revolução de Abril. Como nós não tínhamos, nesse tempo, da implantação de 5 de Outubro, ou do 31 de Janeiro, as únicas datas em que Salazar nos deixava piar. Recordei  com Silveira o busto da República que a D. Dadinha Lé tinha em casa, uma réplica notável da libertária República,  busto desnudo  que levávamos connosco para toda a parte, para simbolizar ao que íamos.

Éramos então a geração dos mais novos: Silveira, Sardo,Candal, eu e Neto Brandão.Que julgo será mesmo o mais novo.

Hoje estávamos lá só dois…..Até quando ?....

SF




domingo, setembro 11, 2016


Erros: sim temos de aceitar….mas honestidade intelectual é preciso...


Usa-se  e abusa-se das citações. Conheço autores que nas Bibliografias dos seus trabalhos,  apresentam dezenas de Obras «a peso» para impressionar,que até parecem ter sido consultadas.É em grande parte falso .Conheço de entre eles, autores, que não leram nem consultaram 5 % dos livros de autores citados.Quando muito consultaram citadores desses autores que andam por aí,e, em quantidade privilegiada.

Quem segue a feitura dos meus livros,sabe que sigo rigorosamente um caminho:
Não só leio todos os autores de que necessito citar ou dilucidar algum assunto .Mas mais :adquiro todos(todos!) os livros disponíveis nos mercado,aqui e ali…. E os outros, os raros tiro copia(autorizadas) da matéria nas Biliotescas ou TT, que depois trabalho em casa. Mesmo assim não evito erros

Há contud ,é certo,certos livros que muito emborsa nada acrescentem, tratam, contudo,assuntos colateriais. Sobre esses não os adquiro ,salvo se tenha interesse para futuro. E leio-os ,embora sem grande precisão,mais como informação .Saber se se justifica para interesse do leitor,serem incluídos na Bibliografia.

Vem isto a proósito de quê ….perguntará o leitor?

Explico .Por vezes, a investigar algo, aparece-nos documento que já em outros livros citámos,e constatamos que já o escarrapachámos de um modo errado.

Assim sucedeu na passada quinta feira na Biblioteca da Universidade de Coimbra. Procurava eu, outras coisas, e eis que me surge um documento chamado   «Lista das Marinha de Portugal nos anos 1790-1791».









Dessa curiosa tabela constato logo em primeiro que ,de facto, Aveiro  tinha uma importância transcendente  na produção de Sal no País. O segundo ou terceiro maior centro de produção.

Mas este numero de 500contradição com o que até aqui era assumido. O de que no reinado de Afonso IV(1325-1357) já existiriam 500 marinhas, um numero que sempre duvidei mais como era citado por tantos autores, depois do C. Rocha e Cunha o assumir. A partir daí não houve publicação, pequena, livro académico , opúsculo, conferências que o não afirmasse. Eu inclusive ,citei-o na Monografia de ílhavo. Sorry…

Aqui fica a rectificação….

Senos Fonseca

domingo, setembro 04, 2016


Postal da Costa-Nova   Nº 12



O Naufrágio do «Senhor dos Aflitos»



Eh!....gentes, há benicias que não Vos punha o argueiro em cima. Ei menhés… que era feito de Vós? . Suas madraças, a faltarem aos ensejos… andais por aí no cangaral
- Ai meu rico filho… queiras lá tu charilo… olhe deu-me uma trízia que me ia levando daqui prós anjinhos…  ­- diz a Zefa, compondo o chapéu de palha que a resguarda do sol, ainda macilento mas a prometer escaldão para mais logo.
- Do inferno querias tu dizer… atalha a Bernarda. Tu (!) pecadora dum raio, metediça até aos càlões… apensas lá tu que quando finares vais pró céu? Tòmarolha?! Armavas pra lá uma chingueradela, um arguizéu, que os anjos batiam as asas esbaforidos… A trízia que ta deu foi o flato c’ arribou ao teu Zé e ficastas sem chupeta, e os gargomilhos entaramelaram-se…
-C’alte mulher desbocada, c’a trízia deu-me pelas perninhas acima. Era uma tremedeira que eu nem podia ir a ver o Senhor
- Coitado… olha o q’Ele perdeu… s’stasse  mesmo a ver…atira –lhe a bernarda sempre inquisiladora.
- Não… a sério meu amigo; no passado dia 20,fazia anos da Tragédia do «Senhor dos Aflitos»,e todos nós ,na Costa-Nova,temos uso e respeito pelos que perderam a vida naquela tragédia, ali à nossa frente,à distância de  50 braças. Se mais!...E vamos à Capela rezar pelas suas almas…que Deus as tenha bem agasalhadas.
. Conte…conte lá mulher….olhe que eu não soube dessa.O  Senhor dos Aflitos,o orago que está no altar, caiu ? ….e estrelaçou-se no empedrado da Capela ?.... estou a ver. Sabe ti Zefa, isso sucede. De tão cansados de estarem sempre de pé e com cara arreganhada….Isto de ser santo, cansa, afianço-lhe eu..
- Não …lá está vossemessê na  xuxa….É danadinho pra mangação….olhe (!) da fama não se livra….e quando a fama chega à rua do lá vai um, é porque : - afamado mas de barriguinha cheia…. Nà…de ser santo não se cansará o amigo.
-Ora ..ora … suas sinfosas simpáticas. Deixem–se de créditos…isso é tudo mal olhado …q’eu p’ra santo ,só me falta a andor….
-Agora a sério. Vamos lá imbarquear. E a Zefa começa a desbobinar
- O «Senhor dos Aflitos» era um barco do mar da Companha do arrais Espiga. Homme bô, ganda arrais. Daqueles c’olhava o mar e logo sabia onde aboiava o peixe. Naquele ano,estávamos em Novembro. A safra tinha sido uma miséria. Uma galiqueira, dizia o Espiga .Nem xarabanecos, nem pilado ...nada!… só água coada .Uma tesura maior que a de um homem enviajado, há seis meses sem chincar vista em cima de fêmea, quanto mais o que vossemessê sabe….
Era já tempo de meter redes em cima e estivar  barcos na duna, não fosse o cão danado do mar  vir desentoado, e fazer os seus estragos.
O dia tinha sido sombrio na véspera. As gaivotas pousadas na praia eram mau agoiro: «em terra a gaivota …é porque o mar a enxota», lá diz o saber dos borda d’água. Tinha trovejado de noite  …..e também lá se diz «trovão solto no céu reboa,…violento temporal apregoa». Mas o Senhorio, sempre a querer, mais e mais, tinha mandado tocar o búzio no cimo da duna, antes do alvorecer. A companha foi-se aproximando. Temerosos todos olhavam o mar.
- Ah!..raios …q’elas vêm alavantadas….e não dão descanso ,nem òspois da trecera……diziam temerosos….
- E o arrais, o que decidiu Ti Zefa?- interrompi eu …
-Bem o arrais esteve hirto, tenso, barrete encafuado,cachimbo pendente entre dentes …sempre a resmungar…escupindo de quando em vez.
E tomou decisão :
- Não Sr. Rechina ( assim se chamava o Senhorio)… com este mar é de guardar resguardo, e não arriscar…
-Eh Ti Espiga ! Atão vossemessê,o arrais mais afamado destes mares…que se gaba de mijar p’ró dito, tem medo dele? Hoje (?!)  que mal atrepa na duna? E a miséria dos seus homens não lhe faz perder o medo? 
- Olhe cá ò Rechina  das «Vacas Gordas» .Eu não tenho medo do mar. Não senhor…Tenho-lhe  é respeito. E se me avisa  que  não me quer lá, respeito-o como a uma mulher. Se não me quer hoje, há-de me querer amanhã…E ouça lá ò peralvilho, penhorista de bens e almas : - mais vale os meus homens passarem mais um dia de fome, que irem procurar pão ao inferno. Que lá só há escasso….Pilados  como  vossemecê...
- Se não vai, tenho ali o Toino «Esguelhudo» que leva o barco- atalha mau encarado o Rechina. E virando-se para a companha diz: Vá gente, embarcai merdosos(!) … que hoje o quinhão é a dobrar.
E a Zefa continua contando…
-E aqueles homens picados por tal promessa, embora hesitando, dando um passo e recuando dois, sempre xaringados pelas promessas do Senhorio, e pelos olhares gulosos de algumas  vendedeiras de peixe  que os acicatavam  p’ró risco, prometendo-lhes  outras benesses mais quentes - mulheres viciosas, mal paridas, que só olham para a sua bolsilho - lá foram embarcando.
-Olhai homens: eu bem vos aviso. Saltai enquanto é tempo…. ouviu-se a voz em trovoada do Ti Espiga.
Mas o barco já ia na borda, continuou a Zefa…
-Houve dois camboeiros, o Gestas e o Gateira, que mesmo à beira saltaram borda fora….escanjurrando a sorte. Veio a primeira vaga. O barco empinou, encabritou, ergueu a bica às alturas, parecendo pedir  protecção ao criador. Mas  foi só um momento. Logo caiu de borco nas costas da vaga, a esparralhar quanta água estava  à sua volta. O barco ungido por tanto farfalho deixou de se ver. Ouviam-se os gritos descontrolados dos que iam no seu bojo. Era aterrador o escarcéu dos pobres embarcados, a verem a morte bailando nas vagas aterradoras.
-Ai S.Pedro…ai nossa Senhora  da Saúde:tomai conta de nós….Ai que estamos desgraçados…acudi-nos…rema…rema….ai que aí vem outra desalmada. Sobe,sobe…..Ai ….ai…

Foto : Rui Cruz

E o barco, bom rompedor, bica afiada para evitar a batidela, a custo parece querer erguer-se. O  Toino «Esguelhudo»,descontrolado,  em vez de olhar o mar abre os braços, e virando-se,louco de medo, para terra, a gritar:
-Ai Ti Espiga. Venha cá home…eu não seguro o barco com esta besta do mar….Ai …acuda….acuda…que morremos todos aqui.
E vai  daí, incapaz larga o reçoeiro, o que numa situação daquelas é o fim. O Xico da «Maluca» ainda se atira ao cabo de terra que salta da mão do Toino. Que ajoelhado chora, grita, implora. O Xico bem tenta endireitar o barco e pô-lo de capa à terceira vaga. Mas era tarde e já não consegue o intento. O «Senhor dos Aflitos» começou a enviesar. E a mostrar à vagalhoça tremenda, não a bica afiada, mas o começo da amura. A vaga pega-lhe. Um primeiro soluço e «Senhor dos Aflitos» atravessa-se. E um segundo soluço… e o barco volta-se de cangalhas, fundo ao ar. Com o zangalhar da embarcação, parte dos homens são cuspidos. Foi o que lhes valeu. O Arrais Espiga já comanda na borda os homens de terra. Lançando-se ao mar puxam para terra mais de uma dúzia de camaradas. São lançados cabos,boias, cortiças, odres- tudo quanto aboiasse!- a que outros se agarraram desesperadamente.

Viradela


Emocionada, lacrimeta ao canto do olho, a Zefa  continua :
- a praia tornou-se um espectáculo de arrepiar. O mulherio de joelhos, mão cerradas, punhos erguidos, cabelos desgrenhadas, lágrimas vertendo como cascatas dos olhos, vidrados pelo terror, imploram salvação p’ràqueles desgraçados. Gritos roucos, esganidos, misturam-se com  vozearia  de «agarra-te»…«nada»…«nada» só mais um bocado; «achega-te que já te ponho a mão».Um balreiro do caraças….

O pior era dos homens que tinham ficado ensarilhados nas redes. Não podendo libertar-se, ficaram debaixo da embarcação quando esta se volteou, ficando de fundo ao ar. O mar foi empurrando o barco para a borda. Mas as redes não deixavam os homens mergulhar e safarem-se. Pareciam peixe preso nas albitanas.

E é o fim.....

Um machado….um machado..vá gritava  o Arrais Espiga….depressa seus pandões.Maneiem-se estipores que estes desgraçados morrem todos, se não lhes acudirmos.
Só que  o «depressa» não veio tão rápido como se queria. E só passada uma eternidade - uma eternidade sim (!) que naqueles momentos cada segundo é uma vida- sublinhava a Zefa, é que o machado chegou às mão do Ti «Espiga». Entrando mar adentro atirou-se a partir o fundo do barco, estilhaçando-o. Logo acorreram camaradas a dar ajuda. E até a Marília «Tuna», mulher despachada lá do Arnal, resoluta, entrou pelo rasgão, e começou a esgaravatar. À procura de mãos para puxar os quase mortos. E muitos, os que Deus quis, foram retirados.
-Todos, atrevo-me ansioso, a perguntar à contadeira?
-Não….. oito ficaram ensarilhados. E só passadas muitas horas se conseguiram resgatar os seus corpos, já sem vida, responde a Zefa, voz embargada, parecendo reviver aquele momento.Oito vidas perdidas por causa da tentação de ganhar mais umas moedas para acudir à fome. Sorte danada a daqueles homes. Vida estuporada, sempre a negar alguma fartura.Tísica. Esculhambrada vida.
- Grande tragédia, de que nunca tinha ouvido notícia. Acabou mal. Pobre gente.
-E olhe que ainda não terminou, continua  a outra, a  Bernarda.
-Olhe: no areal a gente num vai e vem chorando os seus mortos. Outros chora os seus camaradas. No rosto do Ti Espiga, eu,  Bernarda, vi com estes olhos que a terra há-de comer, um sinal de cólera incontida. Homem graúdo, foi à procura do Rechina.Do  Senhorio. Este refugiara-se no palheirão. O Ti Espiga ali chegado, bate forte. Duas murraças valentes na porta enquanto troveja:
-  Salte cá para fora, para ver quem tem medo. Um homem  é um chinquilho ao pé do mar. Mas vossemessê é um cobardola, um porco agiota.Salte ou trago-o pelos gargomilhos…..já que tomates é coisa  que sua mãe não lhe deu ao nascer. Capado de nascença. Fraldoco, pissofoque.
O  Rechina, lá dentro, julgando-se protegido pelo portão grosso da abegoaria, fez ouvidos de mercador. Então o Ti Espiga com o machado com que arrombara o fundo da embarcação, estrançalha e faz em fanicos, a porta da abegoaria. O gado com a barulheira espanta-se e irrompe pela portada. O  Rechina  «das Vacas Gordas»  que estava tentando segurar a portada para ela não ceder aos punhos do «Espiga», é apanhado no estouro da manada. E enfiado nos cornos do «Malhado», vai aos rodilhões, levado areal fora pela besta. Os da borda vêm a correr, num alarido nunca visto. Uns gritando, outos batendo palmas. Outros atónitos e apalermados, arrojam-se no areal, pensando que por ali andava  o  S Bartolomeu à solta.
-E não puseram uma lápide na praia como nome dos desgraçados?- atrevi-me eu a perguntar.
-Não não puseram. Conta-se é, que à noite, a Marília, toda de negro  vestida, se abeirara do mar já aquietado, a enrolar manso no areal, parecendo arrependido. E dizem que  ouviram a sua voz chorosa:
- Porque me levaste o meu Luís?... mar…desalmado. E agora o filho dele que trago no ventre: o que lhe vou fazer?...
 E erguendo-se, atira o xaile que a cobria atirando-o ao areal. Louca faz o gesto de se atirar ao mar, pondo fim ao sofrimento, ao encontro do Luís.
-E …e depois ti Bernarda; morreu? A desgraçada…
-Não amigo .De repente surgiu da sombra uma figura que lhe gritou de um modo  imperativo e a fez parar do seu gesto aloucado:
-Não rapariga…não lhe faças essa vontade. E agarrando a Marília, prende-a a si, evitando a desgraça.
-Tens de ter o teu filho. O filho do Luis «Trimbolim»,que há-se ser um valente como o pai - diz em voz cavada o Ti Espiga à Marília. Tinha, à tarde, notado o olhar torvo da Marília,  adivinhando o gesto louco de então….Por isso a seguira. Agarrando nela levou-a para recato seguro.
- E o que é feito do filho da Marília,o Luís ? perguntei, curioso.
-  O Luís «Trimbolim» ?Anda por esse mar fora a desafiar o mar. Filho de pescador é pescador.Ele também. Dizem ouvi-lo ranger os dentes, afrontando o danado que lhe roubou o Pai: ah mar, mataste o meu Pai. Não te tenho medo, não. Nem ò vida ….Vá: - agacha-te…
Senos da Fonseca  Set 2016

Postal da Costa-Nova   Nº 12



O Naufrágio do «Senhor dos Aflitos»



Eh!....gentes, há benicias que não Vos punha o argueiro em cima. Ei menhés… que era feito de Vós. Suas madraças, a faltarem aos ensejos… andais por aí no cangaral
- Ai meu rico filho… queiras lá tu charilo… olhe deu-me uma trízia que me ia levando daqui prós anjinhos…  ­- diz a Zefa, compondo o chapéu de palha que a resguarda do sol, ainda macilento mas a prometer escaldão para mais logo.
- Do inferno querias tu dizer… atalha a Bernarda. Tu (!) pecadora dum raio, metediça até aos càlões… apensas lá tu que quando finares vais pró céu? Tòmarolha?! Armavas pra lá uma chingueradela, um arguizéu, que os anjos batiam as asas esbaforidos… A trízia que ta deu foi o flato c’ arribou ao teu Zé e ficastas sem chupeta, e os gargomilhos entaramelaram-se…
-C’alte mulher desbocada, c’a trízia deu-me pelas perninhas acima. Era uma tremedeira que eu nem podia ir a ver o Senhor
- Coitado… olha o q’Ele perdeu… s’stasse  mesmo a ver…atira –lhe a bernarda sempre inquisiladora.
- Não… a sério meu amigo; no passado dia 20,fazia anos da Tragédia do «Senhor dos Aflitos»,e todos nós ,na Costa-Nova,temos uso e respeito pelos que perderam a vida naquela tragédia, ali à nossa frente,à distância de  50 braças. Se mais!...E vamos à Capela rezar pelas suas almas…que Deus as tenha bem agasalhadas.
. Conte…conte lá mulher….olhe que eu não soube dessa.O  Senhor dos Aflitos,o orago que está no altar, caiu ? ….e estrelaçou-se no empedrado da Capela ?.... estou a ver. Sabe ti Zefa, isso sucede. De tão cansados de estarem sempre de pé e com cara arreganhada….Isto de ser santo, cansa, afianço-lhe eu..
- Não …lá está vossemessê na  xuxa….É danadinho pra mangação….olhe (!) da fama não se livra….e quando a fama chega à rua do lá vai um, é porque : - afamado mas de barriguinha cheia…. Nà…de ser santo não se cansará o amigo.
-Ora ..ora … suas sinfosas simpáticas. Deixem–se de créditos…isso é tudo mal olhado …q’eu p’ra santo ,só me falta a andor….
-Agora a sério. Vamos lá imbarquear. E a Zefa começa a desbobinar
- O «Senhor dos Aflitos» era um barco do mar da Companha do arrais Espiga. Homme bô, ganda arrais. Daqueles c’olhava o mar e logo sabia onde aboiava o peixe. Naquele ano,estávamos em Novembro. A safra tinha sido uma miséria. Uma galiqueira, dizia o Espiga .Nem xarabanecos, nem pilado ...nada!… só água coada .Uma tesura maior que a de um homem enviajado, há seis meses sem chincar vista em cima de fêmea, quanto mais o que vossemessê sabe….
Era já tempo de meter redes em cima e estivar  barcos na duna, não fosse o cão danado do mar  vir desentoado, e fazer os seus estragos.
O dia tinha sido sombrio na véspera. As gaivotas pousadas na praia eram mau agoiro: «em terra a gaivota …é porque o mar a enxota», lá diz o saber dos borda d’água. Tinha trovejado de noite  …..e também lá se diz «trovão solto no céu reboa,…violento temporal apregoa». Mas o Senhorio, sempre a querer, mais e mais, tinha mandado tocar o búzio no cimo da duna, antes do alvorecer. A companha foi-se aproximando. Temerosos todos olhavam o mar.
- Ah!..raios …q’elas vêm alavantadas….e não dão descanso ,nem òspois da trecera……diziam temerosos….
- E o arrais, o que decidiu Ti Zefa?- interrompi eu …
-Bem o arrais esteve hirto, tenso, barrete encafuado,cachimbo pendente entre dentes …sempre a resmungar…escupindo de quando em vez.
E tomou decisão :
- Não Sr. Rechina ( assim se chamava o Senhorio)… com este mar é de guardar resguardo, e não arriscar…
-Eh Ti Espiga ! Atão vossemessê,o arrais mais afamado destes mares…que se gaba de mijar p’ró dito, tem medo dele? Hoje (?!)  que mal atrepa na duna? E a miséria dos seus homens não lhe faz perder o medo? 
- Olhe cá ò Rechina  das «Vacas Gordas» .Eu não tenho medo do mar. Não senhor…Tenho-lhe  é respeito. E se me avisa  que  não me quer lá, respeito-o como a uma mulher. Se não me quer hoje, há-de me querer amanhã…E ouça lá ò peralvilho, penhorista de bens e almas : - mais vale os meus homens passarem mais um dia de fome, que irem procurar pão ao inferno. Que lá só há escasso….Pilados  como  vossemecê...
- Se não vai, tenho ali o Toino «Esguelhudo» que leva o barco- atalha mau encarado o Rechina. E virando-se para a companha diz: Vá gente, embarcai merdosos(!) … que hoje o quinhão é a dobrar.
E a Zefa continua contando…
-E aqueles homens picados por tal promessa, embora hesitando, dando um passo e recuando dois, sempre xaringados pelas promessas do Senhorio, e pelos olhares gulosos de algumas  vendedeiras de peixe  que os acicatavam  p’ró risco, prometendo-lhes  outras benesses mais quentes - mulheres viciosas, mal paridas, que só olham para a sua bolsilho - lá foram embarcando.
-Olhai homens: eu bem vos aviso. Saltai enquanto é tempo…. ouviu-se a voz em trovoada do Ti Espiga.
Mas o barco já ia na borda, continuou a Zefa…
-Houve dois camboeiros, o Gestas e o Gateira, que mesmo à beira saltaram borda fora….escanjurrando a sorte. Veio a primeira vaga. O barco empinou, encabritou, ergueu a bica às alturas, parecendo pedir  protecção ao criador. Mas  foi só um momento. Logo caiu de borco nas costas da vaga, a esparralhar quanta água estava  à sua volta. O barco ungido por tanto farfalho deixou de se ver. Ouviam-se os gritos descontrolados dos que iam no seu bojo. Era aterrador o escarcéu dos pobres embarcados, a verem a morte bailando nas vagas aterradoras.
-Ai S.Pedro…ai nossa Senhora  da Saúde:tomai conta de nós….Ai que estamos desgraçados…acudi-nos…rema…rema….ai que aí vem outra desalmada. Sobe,sobe…..Ai ….ai…

Foto : Rui Cruz

E o barco, bom rompedor, bica afiada para evitar a batidela, a custo parece querer erguer-se. O  Toino «Esguelhudo»,descontrolado,  em vez de olhar o mar abre os braços, e virando-se,louco de medo, para terra, a gritar:
-Ai Ti Espiga. Venha cá home…eu não seguro o barco com esta besta do mar….Ai …acuda….acuda…que morremos todos aqui.
E vai  daí, incapaz larga o reçoeiro, o que numa situação daquelas é o fim. O Xico da «Maluca» ainda se atira ao cabo de terra que salta da mão do Toino. Que ajoelhado chora, grita, implora. O Xico bem tenta endireitar o barco e pô-lo de capa à terceira vaga. Mas era tarde e já não consegue o intento. O «Senhor dos Aflitos» começou a enviesar. E a mostrar à vagalhoça tremenda, não a bica afiada, mas o começo da amura. A vaga pega-lhe. Um primeiro soluço e «Senhor dos Aflitos» atravessa-se. E um segundo soluço… e o barco volta-se de cangalhas, fundo ao ar. Com o zangalhar da embarcação, parte dos homens são cuspidos. Foi o que lhes valeu. O Arrais Espiga já comanda na borda os homens de terra. Lançando-se ao mar puxam para terra mais de uma dúzia de camaradas. São lançados cabos,boias, cortiças, odres- tudo quanto aboiasse!- a que outros se agarraram desesperadamente.

Viradela


Emocionada, lacrimeta ao canto do olho, a Zefa  continua :
- a praia tornou-se um espectáculo de arrepiar. O mulherio de joelhos, mão cerradas, punhos erguidos, cabelos desgrenhadas, lágrimas vertendo como cascatas dos olhos, vidrados pelo terror, imploram salvação p’ràqueles desgraçados. Gritos roucos, esganidos, misturam-se com  vozearia  de «agarra-te»…«nada»…«nada» só mais um bocado; «achega-te que já te ponho a mão».Um balreiro do caraças….

O pior era dos homens que tinham ficado ensarilhados nas redes. Não podendo libertar-se, ficaram debaixo da embarcação quando esta se volteou, ficando de fundo ao ar. O mar foi empurrando o barco para a borda. Mas as redes não deixavam os homens mergulhar e safarem-se. Pareciam peixe preso nas albitanas.

E é o fim.....

Um machado….um machado..vá gritava  o Arrais Espiga….depressa seus pandões.Maneiem-se estipores que estes desgraçados morrem todos, se não lhes acudirmos.
Só que  o «depressa» não veio tão rápido como se queria. E só passada uma eternidade - uma eternidade sim (!) que naqueles momentos cada segundo é uma vida- sublinhava a Zefa, é que o machado chegou às mão do Ti «Espiga». Entrando mar adentro atirou-se a partir o fundo do barco, estilhaçando-o. Logo acorreram camaradas a dar ajuda. E até a Marília «Tuna», mulher despachada lá do Arnal, resoluta, entrou pelo rasgão, e começou a esgaravatar. À procura de mãos para puxar os quase mortos. E muitos, os que Deus quis, foram retirados.
-Todos, atrevo-me ansioso, a perguntar à contadeira?
-Não….. oito ficaram ensarilhados. E só passadas muitas horas se conseguiram resgatar os seus corpos, já sem vida, responde a Zefa, voz embargada, parecendo reviver aquele momento.Oito vidas perdidas por causa da tentação de ganhar mais umas moedas para acudir à fome. Sorte danada a daqueles homes. Vida estuporada, sempre a negar alguma fartura.Tísica. Esculhambrada vida.
- Grande tragédia, de que nunca tinha ouvido notícia. Acabou mal. Pobre gente.
-E olhe que ainda não terminou, continua  a outra, a  Bernarda.
-Olhe: no areal a gente num vai e vem chorando os seus mortos. Outros chora os seus camaradas. No rosto do Ti Espiga, eu,  Bernarda, vi com estes olhos que a terra há-de comer, um sinal de cólera incontida. Homem graúdo, foi à procura do Rechina.Do  Senhorio. Este refugiara-se no palheirão. O Ti Espiga ali chegado, bate forte. Duas murraças valentes na porta enquanto troveja:
-  Salte cá para fora, para ver quem tem medo. Um homem  é um chinquilho ao pé do mar. Mas vossemessê é um cobardola, um porco agiota.Salte ou trago-o pelos gargomilhos…..já que tomates é coisa  que sua mãe não lhe deu ao nascer. Capado de nascença. Fraldoco, pissofoque.
O  Rechina, lá dentro, julgando-se protegido pelo portão grosso da abegoaria, fez ouvidos de mercador. Então o Ti Espiga com o machado com que arrombara o fundo da embarcação, estrançalha e faz em fanicos, a porta da abegoaria. O gado com a barulheira espanta-se e irrompe pela portada. O  Rechina  «das Vacas Gordas»  que estava tentando segurar a portada para ela não ceder aos punhos do «Espiga», é apanhado no estouro da manada. E enfiado nos cornos do «Malhado», vai aos rodilhões, levado areal fora pela besta. Os da borda vêm a correr, num alarido nunca visto. Uns gritando, outos batendo palmas. Outros atónitos e apalermados, arrojam-se no areal, pensando que por ali andava  o  S Bartolomeu à solta.
-E não puseram uma lápide na praia como nome dos desgraçados?- atrevi-me eu a perguntar.
-Não não puseram. Conta-se é, que à noite, a Marília, toda de negro  vestida, se abeirara do mar já aquietado, a enrolar manso no areal, parecendo arrependido. E dizem que  ouviram a sua voz chorosa:
- Porque me levaste o meu Luís?... mar…desalmado. E agora o filho dele que trago no ventre: o que lhe vou fazer?...
 E erguendo-se, atira o xaile que a cobria atirando-o ao areal. Louca faz o gesto de se atirar ao mar, pondo fim ao sofrimento, ao encontro do Luís.
-E …e depois ti Bernarda; morreu? A desgraçada…
-Não amigo .De repente surgiu da sombra uma figura que lhe gritou de um modo  imperativo e a fez parar do seu gesto aloucado:
-Não rapariga…não lhe faças essa vontade. E agarrando a Marília, prende-a a si, evitando a desgraça.
-Tens de ter o teu filho. O filho do Luis «Trimbolim»,que há-se ser um valente como o pai - diz em voz cavada o Ti Espiga à Marília. Tinha, à tarde, notado o olhar torvo da Marília,  adivinhando o gesto louco de então….Por isso a seguira. Agarrando nela levou-a para recato seguro.
- E o que é feito do filho da Marília,o Luís ? perguntei, curioso.
-  O Luís «Trimbolim» ?Anda por esse mar fora a desafiar o mar. Filho de pescador é pescador.Ele também. Dizem ouvi-lo ranger os dentes, afrontando o danado que lhe roubou o Pai: ah mar, mataste o meu Pai. Não te tenho medo, não. Nem ò vida ….Vá: - agacha-te…
Senos da Fonseca  Set 2016